terça-feira, 30 de agosto de 2011

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes – 2011)


Quando Planeta dos Macacos: A Origem, foi anunciado, confesso que fiquei desconfiado. Primeiro, porque a última tentativa de trazer a história de volta aos cinemas foi um desastre. O filme de 2001 dirigido por Tim Burton é, para utilizar o mais brando dos adjetivos, um tanto estranho. E segundo e mais importante, porque O Planeta dos Macacos, dirigido em 1968 por Franklin J. Schaffner, foi um marco no cinema mundial e sem dúvidas um dos melhores filmes de ficção científica já feitos. Ficção científica de qualidade é um dos gêneros mais difíceis de se fazer no cinema e que geralmente me faz torcer o nariz, mas dobro meus joelhos ao filme de Schaffner. Repleto de críticas sociais ácidas e gravado sob o fantasma da Guerra Fria e, portanto, de uma temível devastação nuclear, o filme de 1968 é fantástico. O filme dirigido por Tim Burton só provou que o filme original é irretocável e assim deveria permanecer. Ainda que Planeta dos Macacos: A Origem se propusesse a contar os eventos que antecederam os do filme original, e não recontá-los, foi com desconfiança que comprei meu ingresso.

O novo filme dirigido por Rupert Wyatt nos traz a história de Will (vivido por James Franco), um cientista que trabalha em um laboratório onde são realizadas experiências com macacos. Will trabalha em busca da cura para o mal de Alzheimer, motivado pelo fato de seu pai Charles sofrer da doença. Tudo muda quando Will descobre César, um filhote de macaco que herdou geneticamente os benefícios do medicamento experimental aplicado na mãe. Não demora muito para César mostrar-se diferente dos outros macacos. César evolui. A primeira coisa que chama atenção no longa é que, apesar do título trazer Planeta dos Macacos estampado em seus pôsteres, o A Origem nos traz um mundo onde os humanos prevalecem e, mais importante ainda, onde os sentimentos dos mesmos são o centro de tudo.


Foi com alívio e satisfação que logo veio a certeza de que o que eu estava vendo era um dos melhores filmes lançados em 2011. Meu ingresso valeu a pena. O que parecia ser uma mera produção para engordar os cofres de seus realizadores mostrou-se um filme espetacular, não apenas em todas as nuances por trás de seu roteiro aparentemente simples, mas em um blockbuster para todos os gostos. Minha maior preocupação de que tentassem macular o filme original de Schaffner evaporou em um instante e foi com deleite que percebi que o filme o homenageava a cada momento. A melhor delas na minha opinão foi a frase dita pelo personagem de Tom Felton, Take your stinking paws off me you damn dirty ape!, a mesma dita por Charlton Heston em 68. Me arrepiei quando a ouvi nesse novo filme e diria que aqui ela é usada com ainda mais astúcia e propriedade. Mas se você não assistiu ao primeiro filme, não se preocupe. Planeta dos Macacos: A Origem ainda valerá cada centavo de seu ingresso e da sua pipoca. A única diferença para quem viu o filme de Schaffner é que a pipoca vai ter um gostinho especial.

Se O Planeta dos Macacos de 1968 parecia criticar tudo – racismo, escravidão, classes sociais meticulosa e hierarquicamente divididas, a atuação de um estado pseudolaico e o sempre polêmico embate entre ciência e religião -, aqui a crítica social limita-se a questionar até onde o homem está disposto a sacrificar sua ética para controlar tudo, passando por cima de questionamentos morais que vêm junto com o avanço da tecnologia e se vale a pena ir além em nome do conhecimento que busca ou da fé que possui. Embora essa observação não seja tão latente na tela, suas consquências nos inquietam de forma indireta, começando com a angústia de César ao tomar consciência de sua existência no mundo através das mãos de seu criador, em um leque de interpretações que vão de questionamentos filsóficos, quando ele começa a se perguntar quem é e o qual o sentido de sua vida, à referências bíblicas, onde Will é o criador e César é aquele que oferece a maçã a seus semelhantes.


Não há muito o que se falar sobre as atuações. James Franco, assim como os outros atores em cena, estão nada mais que corretos, embora seu par amoroso, vivido por Freida Pinto, seja uma personagem completamente descartável. A princípio ela estaria ali para nutrir algum sentimento de ciúmes em César e evidenciar ainda mais seu sentimento de solidão, mas isso nem sequer é sugerido, o que faz de sua personagem apenas uma necessidade que blockbusters sempre parecem ter de colocar algum romance na tela. O inusitado e supreendente é que quem melhor se sai como ator é o próprio César. Graças a tão requisitada tecnologia da Weta – e aos movimentos de Andy Serkis, mesmo ator por trás do Gollum e do King Kong de Peter Jackson, chegando a ser premiado por sua atuação como o primeiro -, o macaco consegue tornar-se cada vez mais humano. A partir do momento em que ele começa a desenvolver sua inteligência cognitiva, e mais importante ainda, sua inteligência emocional, o que vemos é um espetáculo em cada gesto e cada olhar. O contraste entre uma expressividade humana retratada em um corpo selvagem é balenceada com perfeição em um aproveitamento da tecnologia tão eficaz só visto nos trabalhos anteriores da empresa de efeitos especiais da Nova Zelândia, como Senhor dos Anéis, King Kong e Avatar. A expressividade de César – ou de Andy Serkis, se preferir – é o trunfo do filme. É ela que nos possibilita a empatia, pois dessa forma o reconhecemos como um semelhante. Andy Serkis dá um espetáculo de expressividade.

O longa se divide em duas partes bem distintas. Na primeira temos um desenvolvimento brilhante ao redor de César e na segunda temos as consequências de seus atos como ser consciente de si. Embora a segunda parte pareça bem mais corrida em relação a um primeiro momento bem melhor desenvolvido e com bem mais tempo desenrolado-se em tela, ela não chega a atrapalhar o longa como um todo, pois a transição entre as duas ocorre de forma coesa. Para fechar o filme com chave de ouro, já estava sentindo falta de um gancho maior para o filme de 1968 do que a nave indo para o espaço em determinado momento, mas ele veio e foi mais que eficiente ao sugerir os tempos apocalípticos que estariam por vir e que começariam em Nova Iorque, iniciando os eventos que resultariam na supreendente cena final do filme de 68. No mais, as qualidades do filme são tantas que somos obrigados a esquecer as pequenas falhas no roteiro.

Uma ótima pedida para relembrar um dos melhores filmes de ficção da história, se maravilhar com um dos melhores filmes desse ano, para pensar um pouco mais ou apenas se divertir, Planeta dos Macacos: A Origem é um filme que fala, acima de tudo, sobre ser humano. E sobre o que isso quer dizer.

domingo, 28 de agosto de 2011

Touro Indomável (Raging Bull – 1980)


Conheça Jake LaMotta, mais conhecido como The Raging Bull. E é esse o nome do filme de Martin Scorsese que conta a história do lutador de boxe que chegou a ser campeão mundial na categoria peso-médio e que terminou seus dias escrevendo livros sobre a carreira e contando piadas em clubes noturnos. Ao longo do filme dirigido por Scorsese, acompanhamos a trajetória hiperbólica do boxeador que conquistou a glória com seus próprios punhos e que perdeu tudo através dos mesmos. Durante todo o processo LaMotta soca tudo o que lhe passa pela frente . Jake LaMotta é praticamente invencível nos rings e leva essa violência para fora deles porque isso é simplesmente o que ele faz de melhor.

A violência que parece ser intrínseca a Jake LaMotta é acentuada pela relação caótica presente em seu ambiente familiar, pela atmosfera de seu trabalho – não apenas nas lutas travadas dentro do ring, mas nas tensas relações de negócios que se desdobram fora dele – além do lugar em que ele vive. O Bronx é retratado cruamente, onde as casas parede com parede rendem confusões entre vizinhos e discussões acaloradas que se estedem para a rua à vista de quem passa. Toda essa atmosfera em que tudo parece se resolver com gritos e pontapés apenas realça a personalidade explosiva de LaMotta. Aqui é válido se questionar se essa violência de fato nasceu com ele. A guerra faz o homem ou são os homens que fazem a guerra?


A atuação de Robert DeNiro vivendo o pugilista em questão, marcando mais uma parceria com Scorsese, está entre uma das melhores de sua carreira e uma das mais espetaculares que já vi no cinema. As cenas em que contracena com o irmão Joey (vivido pelo coadjuvante Joe Pesci em uma atuação memorável) são particularmente magistrais. Os diálogos entre os dois fluem de forma tão simples e coesa que o espectador fica de olhos grudados esperando o que o outro vai dizer e esquece que o que está vendo é um filme. A cena em que os dois discutem depois de Joey cumprimentar Vickie (esposa de LaMotta vivida por Cathy Moriarty) com um beijo amigável é uma das melhores do longa, e além de ser a costrução de um exemplo perfeito da percepção que LaMotta possui da realidade, possiblita à dupla exibir todo seu potencial.

A direção de Martin Scorsese é irretocável. Durante as cenas dos confrontos parece que estamos dentro do ring acompanhando cada soco, cada flash fotográfico, cada explosão de sangue. Scorsese acompanhando os passos de Jake LaMotta até o ring na luta pelo título é um delírio para qualquer cinéfilo. O preto e branco não foi escolhido por acaso. Além de consolidar a narração de fatos baseados em uma história real e retratar da forma mais crua possível todos os acontecimentos – como em uma luta de boxe onde usa-se apenas os punhos e nenhum outro artifício – o preto e branco ajuda a dar o tom das lutas travadas na época e vistas na TV por milhares de americanos. Esse ar documental só é perdido quando Scorsese nos mostra os vídeos caseiros de LaMotta com sua família, que são utilizados durante a passagem de tempo. Por esse motivo a imagem ganha cores por alguns instantes.


Durante a segunda fase da vida de LaMotta a autodestruição fica clara e o choque é imediato. Nesse momento o preto e branco que antes realçava as vitórias e a crueza das relações caóticas do pugilista emprestam um tom triste que beira o sombrio ao retratar a vida que LaMotta passou a ter. Robert DeNiro teve que engordar quase 30 quilos para retratar a derrocada do pugilista e o indício físico é a primeira coisa que chama atenção. A emblemática cena em que ele soca a parede na prisão é uma das melhores do filme. Os punhos que lhe deram tudo foram os mesmos que lhe deixaram sem nada.

A última cena de Touro Indomável foi uma das melhores que já vi na vida. Poucas vezes vi uma cena final retratar com tanta perfeição o conjunto de uma obra. Em uma única tacada, Scorsese nos mostra quem foi, quem é e quem sempre será Jake LaMotta. Mais do que uma obra-prima, mais do que um marco no cinema dos anos 80 e da história mundial, Touro Indomável é um dos retratos mais realistas das várias facetas da natureza humana vista atráves dos punhos de um pugilista e da câmera de um gênio. No fim das contas, acredito que a cena em que ele se deixa apanhar nas mãos de Sugar Ray Robinson mostra a essência de Jake LaMotta. Ele era capaz de enfrentar qualquer pessoa, mas jamais venceria o melhor. Afinal, como se vence o melhor quando ele é você mesmo?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Balada triste do amor e do ódio (Balada triste de trompeta – 2010 )


Na primeira cena, dois palhaços, o Palhaço Triste e o Palhaço Alegre, fazem crianças rirem no intuito de fazê-las esquecer das bombas que explodem do lado de fora. Em apenas uma cena, somos lembrados pelos palhaços porque o circo existe para logo depois a Guerra Civil Espanhola entrar no picadeiro e tirar o sorriso das crianças. O Palhaço Triste é capturado e obrigado a lutar na Guerra Civil. Armado com um facão e ainda vestido de palhaço presenciamos o aperitivo do que está por vir em Balada do amor e do ódio. Em seguida o Palhaço Triste é capturado e preso, sendo visitado pelo filho Javier (Carlos Areces) durante o pós-guerra, que fica com o estigma da morte do pai e o destino de se tornar um palhaço cravados em sua mente.

O roteiro então nos direciona para o primeiro dia no circo de Javier como o Palhaço Triste, em que ele se apaixona pela trapezista Natalia (Carolina Bang), amante de Sergio (Antonio de la Torre), seu chefe e companheiro de palco, intérprete do Palhaço Alegre. O que vemos em seguida é uma trama tensa em que o triângulo amoroso entre Javier, a sedutora Natalia e o violento Sergio vai ganhando proporções absurdas a cada cena, tudo mostrado dentro de um circo, lugar que deveria levar alegria às pessoas, mas onde encontramos apenas perfis psicológicos repletos de angústia e tensões onde seus integrantes estão sempre a um passo de entrar em um colapso.


E o colapso acontece. Não demora muito para que o roteiro, conduzido pelos personagens que o protagonizam, torne-se caótico, insano e macabro. Não apenas em suas transições de tempo abruptas, não apenas no quase surrealismo de sua narrativa, ou tão somente na destruição sem cerimônias da ambiguidade dos dois palhaços que outrora dividiu o coração de Natalia, mas principalmente no modo como a insanidade de seus personagens crescem de forma descontrolada frente a nossos olhos, protagonizando um espetáculo doentio, tudo devidamente temperado com o sabor da política espanhola e com a textura de uma fotografia sombria cuja única cor forte que parece ter saído do circo é o vermelho do sangue que jorra na tela. A estética é incrível e toda a exuberância do circo ganha contornos viscerais nas mãos do diretor Álex de la Iglesia. Os sentimentos de amor, ódio e vingança de Javier se misturam e o resultado é delirante. Não me arrisco a revelar mais detalhes sobre o roteiro. Quando menos você souber sobre o filme antes de assisti-lo, maior será o choque e, portanto, mais eficiente o resultado.

Para os mais conservadores, cinematograficamente falando, Balada do amor e do ódio pode parecer um filme horrível em todos os seus sentidos – e realmente o é em alguns. Mas é justamente por esse conceito de horrível tachado por alguns que afirmo que o filme é tão bom. Todos os absurdos presentes em sua constituição montam um quadro bizarro que não apenas são um retrato de uma guerra, seja ela travada em um país por motivos políticos, seja ela travada em um circo por um coração, como nos questionam onde começa e onde termina o limite do visceral presente na natureza humana.

A última cena é tão simbólica quanto a primeira e fecha com louvor um espetáculo deliciosamente macabro. Com uma estética soberba e pontuada com uma trilha sonora perfeita, a fita é violenta, sangrenta, punk, doentia, visceral, sombria e caótica, uma experiência cinematográfica única que mostra com um sorriso insano na boca que um filme não precisa ser aquilo que comumente define-se como bonito para ser bom.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A fita branca (Das Weisse Band – 2009)


Estranhos acidentes começam a acontecer em um vilarejo alemão, às vésperas do início da Primeira Guerra mundial. O médico cai do cavalo depois de alguém ter amarrado uma corda entre duas árvores. Uma mulher cai e morre em uma serraria. Duas crianças são sequestradas e torturadas. Preocupado com o rumo dos acontecimentos, o professor do vilarejo decide investigar quem é o autor — ou autores — de tamanha brutalidade. E é ele quem nos narra toda a história, com uma voz cansada e arrastada, anos depois dos acontecimentos.

A primeira coisa com que nos deparamos é uma população extremamente conservadora. Formada por classes sociais meticulosamente divididas e estabelecidas, os alemães do vilarejo prezam pelo puritanismo e pela disciplina. Disciplina aplicada pelos pais que deve ser seguida à risca por todos os seus filhos, que são repreendidos com severidade quando decepcionam seus genitores. Diante desses fatos, não fica difícil supor quem está por trás de tanta violência, o que não é mistério algum. E violência é a palavra chave na filmografia de Haneke.

Entre seus filmes anteriores, podemos encontrar O Vídeo de Benny, a história de um jovem que adora assistir a vídeos violentos e acaba protagonizando um; Violência Gratuita, que conta como um casal é atormentado por dois psicopatas; já em Cachê, o anterior a A Fita Branca, uma família sofre com vídeos caseiros deixados à sua porta. Seja ela psicológica, física ou em ambas as formas, a violência está sempre presente nos filmes de Haneke. Entretanto, em A Fita Branca, ela não é vista, apenas notada. Mesmo não a vendo, sabemos que ela está lá. Ela é sutil. E é assustadora.


No longa acompanhamos basicamente quatro famílias, cada uma representando, de certa forma, uma classe social: a do pastor, a do médico, a do barão e a do capataz. O capataz é um homem simples que, assim como os outros que se encontram em suas mesmas condições financeiras, tenta, digamos, ganhar seu pão sem mexer na carne dos mais ricos; ele enfrenta o filho rebelde que, insatisfeito com a postura do barão, destrói sua plantação. O barão é traído pela esposa e tem o filho torturado. O médico, além de exigir submissão dos filhos, exige-a por parte da parteira, com quem mantém relações desde a morte da mulher; humilhada pelo médico porque ele já a julga velha, a parteira pouco pode fazer — explicitando a submissão não só dos filhos à figura masculina, mas também a das mulheres. Já na casa do pastor encontramos seus dois filhos mais velhos — embora ainda sejam crianças — usando uma fita branca, ele no braço e ela no cabelo. A fita é um lembrete aos filhos acerca da pureza, inocência e disciplina que eles têm que conservar.

Nota-se a preocupação de Haneke em tentar retratar todo esse episódio com o máximo de realidade possível, da escolha do P&B até sua técnica fílmica, deixando a câmera quase estática em vários momentos. Tudo para que o filme pareça um fato histórico. A Fita Branca é perturbador desde o começo, e são inúmeras as cenas que só fazem aumentar a sensação de mal-estar. Vemos crianças andando em bandos, como animais, uma garota enfiando uma tesoura goela abaixo de um passarinho, um pai que amarra o filho na cama para que ele  peque pela carne, vemos jovens frios e cruéis gerados no seio de suas tão sábias e puras famílias.

Seja aspirando retratar as origens do nazismo — ambição descartada por Haneke  — ou simplesmente demonstrando o limite do autoritarismo dos pais sobre seus filhos e as terríveis consequências de tamanha repressão, nossos olhos testemunham um espetáculo cinematográfico inquietante nada agradável de se ver. Embora a poltrona do cinema tenha me parecido um pouco mais desconfortável do que o usual, fiquei quietinho com os olhos na tela, apenas assisitindo. Bem comportado, como os filhos de outrora.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Rei da Comédia (The King of Comedy – 1982)


Martin Scorsese já provou ser um cozinheiro de mão cheia e nos presenteou com filmes espetaculares. O Rei da Comédia não é considerado um dos melhores filmes de Scorsese, muitas vezes sendo considerado menor em relação a muitos outros trabalhos do diretor nova-iorquino. Eu o considero um filme subestimado. Há muitas nuances a serem consideradas por trás do roteiro aparentemente simples.

A fita conta a história de Rupert Pumpkin — interpretado por Robert De Niro, marcando mais uma parceria de sucesso com Scorsese —, aspirante a comediante que sonha em entrar para o show business com a ajuda de Jerry Langford, vivido por Jerry Lewis. As primeiras cenas, em que Pumpkin imagina que está realmente falando com Jerry — enquanto é repreendido pela mãe por fazer barulho demais — são mostradas de dentro de sua cabeça pela câmera de Scorsese e não demoramos muito para perceber que o que Pumpkin tem não é apenas um sonho, mas sim uma obsessão doentia.

Pumpkin falando com manequins. 
Entendeu o que eu quis dizer com obsessão doentia?
Nos dois primeiros atos do filme, Pumpkin chega a ser um personagem irritante ao tentar levar a cabo seus planos de ser ouvido por Jerry Langford. Suas tentativas fracassadas de falar com o famoso comediante não incomoda somente os personagens secundários, mas também a própria audiência. Entretanto, são justamente nessas cenas em que Robert De Niro mostra porque foi escolhido para o papel, pois à medida que acompanhamos seu louvável esforço em interpretar um personagem aparentemente simples (perceba que “Pumpkin” é um trocadilho com abóbora, em inglês) é que ele nos prepara para arrancar aplausos no terceiro ato.

Enquanto isso, o personagem interpretado por Lewis mostra um lado muito curioso do show business — que ao contrário do que muitos pensam, pode ser um lugar bem frio por dentro. Jerry Langford é adorado por seus fãs e é reverenciado por simplesmente andar na rua, embora não seja muito adepto a sorrisos ou simpatia gratuita. Ele trata seus fãs de maneira apenas correta, nada além disso; não há emoção ou calor genuínos. Jerry Lewis, ator carimbado das comédias dos anos 60, não foi escolhido por acaso, tudo para dar mais veracidade ao que é contado.

Quando Pumpkin entra na casa de Jerry sem ser convidado e, por fim, sequestra o humorista com a ajuda de sua amiga Masha, vivida de forma inquietante por Sandra Bernhard (sim, dois stalkers juntos com a mesma obsessão, alguém nos acuda!), tudo para ter a oportunidade de se apresentar em seu programa, toda a nossa irritação com o personagem mescla-se com uma dose de compaixão. Porque somente quando é nos dito que Pumpkin estaria disposto a perder sua liberdade para ganhar a chance de uma única apresentação no programa de Jerry é que entendemos que, assim como tantas outras, a obsessão de Pumpkin é vazia, oriunda de uma vida sem sentido. Esse sentimento é ainda mais evidente nas piadas contadas por Pumpkin em sua estréia. Para os espectadores mais atentos, é possível perceber que, assim como muitos grandes nomes do humor mundial, e me arriscaria a estender esse raio para contemplar grande parte dos artistas, Pumpkin utiliza-se do próprio sofrimento para fazer sua arte. Ele conta sua vida inteira para todo o país. Basta ler as entrelinhas.

E o final da película é um golpe de mestre. A câmera de Scorsese nos mostra a repercussão do sequestro de Jerry por Pumpkin e de sua apresentação na TV. Entretanto, é importante lembrar que a câmera do diretor passeia tanto pela realidade quanto pelos delírios do comediante vivido por De Niro, deixando-nos maravilhados sem saber se o que foi mostrado aconteceu de fato ou não. A certa altura da película, Rupert Pumpkin diz que prefere ser rei por uma noite do que ser idiota por toda a vida. Scorsese nos mostra sua coroação, mas cabe a quem assiste legitimar Rupert Pumpkin como o rei da comédia ou não. Nada mais justo. Um rei é apenas um homem sem seus súditos. Nada mais.