quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Minha bela dama (My Fair Lady – 1964)


Esqueça aqueles musicais grandiosos, com letras vazias e tramas pobres. Pegue um arrogante e antipático professor de fonética, uma mendiga que vende flores e que fala um inglês tão ruim que chega a doer aos ouvidos de quem a escuta, uma simples aposta, ninguém menos que Audrey Hepburn, coloque tudo isso em um filme e você tem um dos melhores e mais divertidos musicais de todos os tempos.

Em Minha bela dama temos Eliza Doolittle (Audrey Hepburn), uma jovem pobre que vende flores nas ruas frias e escuras de Londres para ganhar alguns trocados. Quando o professor de fonética Henry Higgins (Rex Harrison) ouve o terrível sotaque de Eliza, aposta com seu amigo, o coronel Hugh Pickering, que é capaz de transformar aquela simplória vendedora de flores em uma dama da alta sociedade em apenas seis meses. A coisa que eu mais prezo em um filme é um roteiro de qualidade e a trama contada em Minha bela dama me conquistou desde o início por seu charme e simplicidade – embora eu deva admitir que Audrey Hepburn tenha contribuído bastante para o filme conquistar minha simpatia.

O roteiro foi baseado na peça homônima que estava sendo apresentada na Broadway. Rex Harrison era o intérprete de Henry Higgins na peça e não teve dificuldades em interpretar o intelectual professor no cinema, no máximo tendo que adaptar sua atuação dos teatros para a tela. Como curiosidade de camarim, vale dizer que Harrison queria, naturalmente, que Eliza Doolittle fosse vivida por sua companheira de palco, Julie Andrews, mas felizmente (sem ressentimentos, Julie) quem ficou com o papel foi a espetacular Audrey Hepburn.

Eliza antes…

Ao contrário de musicais mais grandiosos, com cenários elaborados e coreografias mais complexas, Minha bela dama aposta na simplicidade das letras de suas músicas e no encaixe perfeito com seus personagens e trama. Nenhuma música está ali apenas porque estamos falando de um musical. Cada música foi pensada e colocada na hora certa, com o propósito de transmitir os desejos e os sentimentos dos personagens no momento oportuno, e os números são simples e nem um pouco circenses. O filme imortalizou músicas, e minha preferida é I Could Have Danced All Nigth. Os cenários são visivelmente falsos, mas isso não é ruim. A direção de arte é tão impressionante, as cores são tão bem trabalhadas, que você simplesmente esquece de todo o resto e fica a admirar os tons frios das ruas de Londres, o contraste com as cores das flores que chegam aos montes prontas para serem vendidas, as cores quase monocromáticas da vestimenta da aristocracia londrina na corrida de cavalos tão condizente com sua apatia, tudo, absolutamente tudo pensado de forma primorosa.

Mas não há como negar. O filme não teria metade do charme que possui se não fosse pela atuação de Audrey Hepburn. Nas primeiras cenas a voz e os gritos de Eliza (com o bordão I’m a good girl, I am! me fazendo rir ao escutá-lo pela enésima vez) chegam a irritar de verdade e o filme parece demorar para começar. Mas logo nos damos conta de que (acredito inocentemente) tudo foi proposital, para fazer o contraste impressionante entre a simplória vendedora de flores e a fina dama em que Eliza se transformaria – contraste belíssimo que se dá por completo quando presenciamos Eliza comprando uma flor no lugar que antes as vendia. A química entre Audrey e Rex Harrison é impressionante, o que só faz aumentar a qualidade da atuação de ambos. Apesar de um trabalho memorável, Audrey foi injustiçada duas vezes. Primeiro, gravou todas as músicas, mas foi injustamente dublada e suas versões foram simplesmente esquecidas. Para quem desconfia de que Audrey cantava mal, lembro que ela já foi agraciada com um Grammy – assim como com o Tony, o Emmy e o Oscar. E para completar, ao contrário de Rex Harrison, Audrey Hepburn foi absolutamente ignorada pela Academia.

… e depois.

O roteiro começa de forma simples e engraçada, com os impagáveis gritos e erros de Eliza Doolittle, assim como a impaciência do professor Higgins diante de uma pupila tão indisciplinada. Mas como se não desse por satisfeito ser apenas engraçado, o roteiro avança e somos surpreendidos pelo sentimento de inadequação de Eliza, que em certo momento olha para si mesma e não se reconhece mais, não por causa de suas atitudes, mas no sentido mais intrínseco da expressão. Ela não é mais a mendiga que vendia flores e falava errado, mas tampouco tem dinheiro condizente com a classe que passou a ter. Sem poder voltar a ser o que era e sem condições de se tornar o que almeja ser, Eliza se vê apenas como um objeto de estudo do professor Higgins e do coronel Pickering. Mas como os brutos também amam, a solteirice convicta de Higgins é posta em xeque quando ele sente falta da garota que mudou sua vida tão sem graça. O final não é mistério e você pode imaginar. Mas não espere um grande beijo na última cena. Afinal, estamos falando de um professor orgulhoso e uma mulher que, apesar de ter se tornado uma dama, continua tendo a personalidade daquela florista que vimos vestida em trapos no começo do filme. O único personagem mal trabalhado é o pai de Eliza, absolutamente deslocado e mal aproveitado.

Considerado o oitavo maior musical de todos os tempos pelo American Film Institute e vencedor de singelos 8 Oscars, incluindo o de Melhor Filme e o de Melhor Direção, Minha bela dama traz uma história cativante, divertida e charmosa. As três horas de duração passam voando.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ilha do Medo (Shutter Island – 2010)


A história começa com a chegada dos agentes federais Teddy Daniels e Chuck Aule na Shutter Island, que abriga o Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, um manicômio destinado a doentes mentais de alta periculosidade, que tenham cometido crimes hediondos, em sua maioria assassinatos. Os detetives foram incumbidos de solucionar o aparentemente impossível desaparecimento de uma dessas pacientes — Rachel Solando. Sendo atrapalhados por uma terrível tempestade que não os deixarão sair de Shutter Island tão cedo e por toda burocracia imposta pelos dirigentes da instituição, as investigações tomarão rumos estranhos e sombrios. O filme foi baseado no livro Paciente 67, de Dennis Lehane. Li o  (ótimo) livro e posso adiantar que a trasposição para as telas foi impecável.

Por ser dirigido por Martin Scorsese, é óbvio que as expectativas em relação ao filme não poderiam ser poucas. Mas em Ilha do Medo Scorsese deixa de lado sua preocupação em agradar gregos e troianos e permite-se ousar mais — ou menos, dependendo do ponto de vista. Ilha do Medo é entretenimento puro comparado às suas obras já consagradas. Mas isso não quer dizer que seja ruim. Não mesmo.


Interpretando Teddy Daniels encontramos Leonardo DiCaprio, o mais recente alter ego do  diretor. Leonardo DiCaprio não decepciona, transmitindo toda angústia que o personagem carrega, seja durante as visões da mulher morta, ou quando lembra dos horrores da Segunda Guerra Mundial, quando teve que enfrentar nazistas na frente americana.

Aliás, as cenas em que ele lembra do campo de concentração estão entre as melhores. A fotografia é incrível, assim como toda a direção de arte. Os poucos segundos em que os judeus são mostrados — sejam tremendo de frio ou em pilhas de cadáveres — são perfeitos, transmitindo uma realidade poucas vezes vistas no cinema quando o assunto é Segunda Guerra Mundial. Destaco também a cena em que Daniels e sua esposa conversam enquanto tudo vira cinzas. A plasticidade é de encher os olhos.


O time de coadjuvantes é de primeira. Mark Ruffalo, que vive o parceiro de Daniels, começa o filme um pouco apagado, já que as atenções estão claramente voltadas para DiCaprio. Mesmo assim, seu personagem ganha força ao longo da fita e Ruffalo obtém bons momentos — vide a cena em que ele alerta Daniels de que nem tudo é o que parece, quando estão em uma cripta, protegendo-se da tempestade. Ben Kingsley, que eu esperava ser o azarão da fita, é uma boa surpresa, pois suas feições sem emoções acabam passando a imagem certa do Dr. Cawley. Michelle Williams, que vive Dolores, a esposa morta de Daniels, aparece somente em flashbacks e nos sonhos e visões do protagonista. Ela é sem dúvidas a pior do elenco, aparentando uma mosca morta. Tive a impressão de a qualquer momento ela poderia desmaiar. Mas o time feminino foi salvo pelas intérpretes de Rachel Solando, que infelizmente não puderam mostrar mais suas capacidades. Temos ainda Max Von Sydow. O ator sueco teve uma única cena ótima com DiCaprio, e assim como as atrizes anteriores, não pôde ser mais explorado por falta de tempo. Para completar temos Jackie Earle Haley, em uma das melhores cenas do filme, vivendo o perturbado George Noyce.

Apesar de haver falhas no elenco, Ilha do Medo funciona perfeitamente, pois seu foco está na narrativa, e não nos personagens — embora, obviamente, eles sejam fundamentais. A película nos envolve desde o início, e toda atenção é necessária para compreendermos os desdobramentos que ocorrem em uma trama tão surreal — atenção essa que damos sem nem nos darmos conta.

Além do já citado trabalho de fotografia e direção de arte — que casam-se perfeitamente para criar o ar sinistro que envolve Shutter Island —, a trilha sonora é um ponto forte, lembrando vagamente as trilhas dos filmes B da década de 80. Além disso, Scorsese consegue com que toda a áurea de mistério do filme não o faça parecer mais um filme de suspense, tratando a película com uma elegância quase hitchcockiana, flertando com o noir.


Em suma, Ilha do Medo é um verdadeiro deleite para os fãs de Scorsese, sem deixar de ser um filme espetacular para quem esteja simplesmente em busca de entretenimento de qualidade. A fita divide opiniões. Muitos não a consideram de fácil entendimento. Por isso, não se assuste se você assisti-la com alguém e a pessoa ao seu lado torcer o nariz no final.  Afirmo que Ilha do Medo não deve ser apreciado apenas por sua  conclusão. Ele não foi feito com o intuito de ser um mero filme com um grande final, embora esse final esteja presente e muitos não o entendam.

Apesar de não seguir a filmografia clássica de Scorsese, Ilha do Medo acaba sendo quase uma experiência de gênero para o diretor. E certamente, se não fosse dirigido por quem foi, o filme teria sido aquilo que muitos espectadores frustrados esperavam que fosse quando foram assisti-lo: um mero filme de suspense com um final surpreendente.  Mas Ilha do Medo vai além. Ele consegue ser um legítimo Scorsese. Imperdível.

domingo, 18 de setembro de 2011

Melancolia (Melancholia – 2011)


A depressão é um distúrbio afetivo que acompanha a humanidade ao longo de sua história. No sentido patológico, há presença de tristeza, pessimismo, baixa auto-estima, que aparecem com freqüência e podem combinar-se entre si. A depressão é uma doença. Há uma série de evidências que mostram alterações químicas no cérebro do indivíduo deprimido, principalmente com relação aos neurotransmissores (serotonina, noradrenalina e, em menor proporção, dopamina), substâncias que transmitem impulsos nervosos entre as células. Outros processos que ocorrem dentro das células nervosas também estão envolvidos. Ao contrário do que normalmente se pensa, os fatores psicológicos e sociais muitas vezes são consequência e não causa da depressão. Vale ressaltar que o estresse pode precipitar a depressão em pessoas com predisposição, que provavelmente é genética.

Fonte: Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde.

Um planeta chamado Melancolia está prestes a se chocar com a Terra e causar o fim do mundo. Enquanto isso, Justine (Kirsten Dunst) comemora seu casamento com Michael (Alexander Skarsgard) em uma festa suntuosa organizada pela irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu marido John (Kiefer Sutherland). Na festa de casamento somos apresentados aos pais de Justine, vividos de forma primorosa por John Hurt e Charlotte Rampling, o pai alegria pura, a mãe o extremo oposto, ambiguidade presente em qualquer ser humano. Durante a festa os esforços de Claire e John para que tudo corra bem são claros. O objetivo principal é que Justine seja feliz, tarefa quase impossível para quem sofre de depressão profunda. Justine parece nos mostrar que a condição de quem nasce como ela é ser triste e felicidade são apenas momento fugazes que acontecem quase sem querer. A medida que nos tornamos mais próximos do drama de Justine, as grandiosas intenções de Lars Von Trier em ligar a vida dessa família com a proximidade do Melancolia ficam cada vez mais claras. O diretor dinamarquês fala sobre depressão e como metáfora usa nada menos que o fim do mundo.

Justine encara a câmera da mesma forma que encara a vida.

Nessa primeira parte o planeta Melancolia ainda está longe e o casamento serve para observarmos a vida e os sentimentos de inadequação de Justine se aprofundando a cada momento, frente a quase obrigação imposta pelos outros de que ela seja feliz. O planeta se aproxima, a doença de Justine piora drasticamente e chega a segunda parte do longa, que leva o nome de sua irmã. Apesar do segundo ato levar o nome de Claire e de Charlotte Gainsbourg desempenhar seu papel com louvor, é Kirsten Dunst quem brilha o tempo o inteiro. Aqui a depressão de Justine chegou a tal ponto que a impede até de tomar banho. Em uma das cenas mais significativas, ao comer o bolo de carne preparado pela irmã, seu prato preferido, Justine chora dizendo que aquilo tem gosto de cinzas. Kirsten Dunst mostra porque foi a Melhor Atriz em Cannes esse ano. O estado de espírito de sua Justine chega a ser palpável e o que vemos em tela não parece ser seu corpo, mas sim sua alma. Sua atuação é brilhante do começo ao fim, sem meio termos.

A medida que o planeta se aproxima da Terra, o sentimento de incompreensão que nós e os familiares de Justine sentimos em relação a sua doença diminui a cada quilômetro percorrido pelo Melancolia. Se na primeira parte somos apresentados à melancolia doentia de Justine e não conseguimos compreender seu sentimento de inadequação existencial, na segunda parte passamos a começar a entendê-la ao notarmos um sentimento não tão diferente surgindo em Claire e seu marido John que, diga-se passagem, possui um arco narrativo secundário muito bem desenvolvido.


Ao meu ver, esse é o grande trunfo de Melancolia. Ao usar um planeta em rota de colisão com a Terra e o fim do mundo como metáfora para a depressão, Lars Von Trier rompe a barreira do mundo em que vivemos e do mundo que temos dentro de nós. A melancolia é o sentimento que surge no choque entre esses dois. No caso de Justine, o simples choque entre sua existência e a Terra; no caso dos outros, entre suas existências e o fim da mesma.

Seu derradeiro ato ganha tons de azul cada vez mais fortes em um ritmo quase exponencial. A plasticidade e a trilha sonora que vemos no final tem a mesma qualidade irretocável presente em todo o filme, desde seu prólogo quando acompanhamos durante alguns minutos cenas que parecem pinturas em um movimento lentíssimo, de mãos dadas com uma ópera de tirar o fôlego. Melancolia é uma soberba mistura de atuações e diálogos que transcendem o que é visto com imagens que transcendem qualquer fala. A despeito de suas polêmicas declarações em Cannes e de ter sido banido do festival por conta delas, Lars Von Trier cria uma obra de arte que ofusca qualquer coisa que tenha dito. Melancolia é uma metáfora grandiosa e nada sutil belamente desenvolvida para retratar a tristeza mais profunda que um ser humano pode sentir. A tristeza em existir.