quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Kill Bill Vol. 1 e 2

 

O quarto filme de Quentin Tarantino. Foram com essas pretensiosas palavras estampadas em seu cartaz que Kill Bill Vol. Um foi vendido. Inicialmente idealizado como um filme só, Kill Bill foi dividido em dois volumes, sendo o primeiro lançado em 2003 e o segundo no ano seguinte. Ainda que os dois volumes possuam estilos completamente diferentes, Kill Bill é artisticamente indivisível, e portanto não vi porque não escrever sobre os dois volumes em uma única resenha.

Kill Bill é um épico de vingança. Uma Thurman encarna A Noiva, assassina profissional integrante do Esquadrão Assassino Víboras Mortais, que agora grávida decide se casar e ter uma vida normal. No dia do ensaio de sua cerimônia de casamento, Bill (David Carradine) – o chefe do Esquadrão -, juntamente com os outros quatro integrantes do Víboras, executa um atentado na igreja. A Noiva entra em coma profundo. Dada como morta por seus antigos companheiros do Esquadrão, ela desperta quatro anos depois em busca de vingança e vai atrás de todos, um por um.

Kill Bill possui tantas referências que beira o plágio. O diferencial está na forma como Tarantino utiliza essas referências. Elas não são simplesmente colocadas em um liquidificador e jogadas na cara do espectador. Elas são cuidadosamente costuradas fazendo com que o resultado na tela seja um misto dos filmes de artes marciais chinesas e japonesas, westerns spaghetti – os faroestes italianos, mais violentos que os americanos e com personagens mais complexos – e do cinema exploitation – aquele cinema que apela para cenas mais fortes para atrair o público, como o gore que apela para o sangue.


E essa é a primeira coisa a chamar atenção em Kill Bill. Ele é violento, mas sua violência é propositalmente exagerada. Ninguém pode levar Tarantino a sério quando um braço é arrancado aqui ou uma cabeça decepada ali e o sangue jorra como se saísse de uma mangueira. No primeiro volume é interessante notar que ele chega a utilizar técnicas para aliviar o espectador do que seriam as tomadas mais violentas da fita. A história de O-Ren (Lucy Liu), com assassinatos a sangue frio e cenas de pedofilia, é contada de forma espetacular através de um anime. Mais do que aliviar o espectador dessas cenas, o anime foi escolhido não apenas pela naturalidade de O-Ren, mas também porque foram muitos mangás e animes que inspiraram a produção cinematográfica com foco nas artes marciais na terra do sol nascente, filmes esses que Kill Bill referencia do começo ao fim.  Da mesma forma, quando A Noiva luta contra os 88 Loucos, a fotografia preto e branco atenua o que seria a tomada (live action) mais violenta dos dois volumes, recurso esse utilizado antigamente quando os realizadores de um filme muito violento queriam driblar a censura. Não há dúvidas de que Kill Bill é um filme que possui autoconsciência e esse é um de seus maiores méritos.


Outro ponto a ser levado em consideração é a forma como a história no volume um é contada. Primeiro assistimos à Noiva indo atrás de Vernita Green, que é a segunda de sua lista, para depois assistimos ao combate contra a primeira, O-Ren. Se em outros de seus filmes a não-linearidade é utilizada para construir a história, à primeira vista em Kill Bill Vol. Um ela parece ser utilizada apenas porque é um filme de Tarantino e ponto final. Pode-se dizer que Tarantino deixa O-Ren por último porque seu arco narrativo é a coluna vertebral do filme, além de ser claramente o clímax do primeiro volume, e que se quisesse poderia facilmente colocar Vernita sendo a número 1 da lista e O-Ren a número 2, descartando, assim, a utilização do tempo não-cronológico. Entretanto, antes do fim da fita fica claro que A Noiva desconhecia o paradeiro de Vernita e que O-Ren era famosa por sua posição na máfia japonesa, sendo muito mais fácil e lógico A Noiva ir primeiro atrás de O-Ren.

A escolha de Tarantino para o papel da Noiva não poderia ser diferente. Uma Thurman chega a ser creditada como criadora da personagem principal e roteirista junto com Tarantino. Ela consegue impor a expressividade necessária a sua personagem e se sai muito bem nas cenas de luta, onde praticamente nenhum efeito especial foi utilizado, com exceção dos cabos apagados da tela que permitiram aos atores executarem golpes mais mirabolantes. Todas as cenas de combate foram dirigidas com um ritmo assustadoramente preciso.Indo de temas western compostos por Ennio Morricone a pop oriental, digo sem medo que a trilha sonora de Kill Bill foi uma das melhores da década. Não apenas pela qualidade das composições, mas principalmente pela harmonia quase anormal entre o que é visto e o que é ouvido. Tarantino consegue imprimir consistência em cenas aparentemente inócuas como a que A Noiva anda de cadeira de rodas no estacionamento do hospital apenas com a trilha sonora.


Depois de um primeiro volume soberbo, Tarantino chega a decepcionar com o segundo volume. Visto isoladamente, o segundo volume é tão bom quanto o primeiro, mas tendo em vista que não há como não levar o volume um em consideração, Kill Bill Vol. Dois está muito aquém de Kill Bill Vol. Um. O segundo volume possui uma história mais lenta e arrastada. Se no primeiro a narrativa era mais ágil com lutas e sangue para dar, vender e filmar, aqui o ritmo é outro, dando mais espaço para os diálogos que o diretor tanto gosta e que não apareceram muito no primeiro. A segunda parte é onde A Noiva finalmente encontra Bill, depois de enfrentar Budd e Elle Driver. No volume um A Noiva era apenas uma assassina vingativa sem nome e Bill uma voz no escuro com a mão e a espada enquadradas pela câmera. Agora passamos a conhecer melhor ambos. A Noiva ganha um nome e Bill um corpo. Eles se tornam mais reais e humanos e esse é o maior problema da fita. Eles ganham tanta profundidade que o filme parece perder seu propósito. A divisão do filme por motivos exclusivamente comerciais chega a ser quase justificável. Apesar de diálogos brilhantes como a explicação do nome dos 88 Loucos ou da metáfora do peixinho dourado, temos outros como a do Superman, não menos brilhante, mas que parece fora de contexto saindo da boca do personagem de David Carradine.


Apesar de tudo isso o filme nos brinda com o que eu considero as melhores cenas dos dois volumes. Faltando apenas Budd, Elle e Bill, A Noiva vai agora arás do primeiro para continuar sua vingança. Budd mostra-se uma surpresa tanto para A Noiva quanto para o espectador, sendo sua maior ameaça até então. Enquanto está enterrada viva, acompanhamos seu treinamento com o mestre Pai Mei. A fotografia ganha ares de filme antigo e Tarantino nos brinda com seu melhor. Levando em consideração o ritmo arrastado do filme, é inexplicável haver tantas cenas que poderiam ser descartadas quando as do treinamento duram tão pouco. Quando A Noiva e Elle se encontram temos o combate que considero o melhor dentre os dois volumes. Já o combate final entre A Noiva e Bill é decepcionante. O que vemos ali simplesmente não está à altura de tudo que vimos até então e o título do filme e o sentido de ódio e vingança que ele carrega parece distante.

Chegamos à conclusão de que as estrelas de Kill Bill são as mulheres. Trazendo elementos esquecidos para a contemporaneidade e costurando-os de forma magistral, Tarantino nos oferece um épico de sangue e vingança que tem consciência de si enquanto cinema. Se Kill Bill vale ser visto? Com toda a certeza. Afinal, é um filme de Quentin Tarantino. E mesmo que isso não fosse importante, ainda seria muito divertido.

sábado, 22 de outubro de 2011

Não tenha medo do escuro (Don’t Be Afraid of the Dark – 2010)


Em meio a um gênero que ultimamente lança filmes enlatados com marketing feito sob medida para adolescentes e que perde-se cada vez mais no trash, é sempre bom conferir uma tentativa em resgatar aquele terror clássico que instiga os medos mais primitivos e irracionais do espectador. Não tenha medo do escuro nunca teve a pretensão de inovar seu gênero, mas soube explorar características utilizadas em exaustão em filmes desse filão para contar uma história simples, com elementos requentados, da melhor forma possível, embora seu melhor não tenha sido o bastante. O longa é dirigido por Troy Nixey com roteiro e produção de Guillermo del Toro.

Alex (Guy Pearce) e Kim (Katie Holmes), sua nova namorada, se mudam para uma mansão do século 19 e querem reformá-la. A pequen Sally Hurst (Bailee Madison), filha dele, é uma criança solitária e curiosa. Um dia, enquanto explorava a enorme propriedade, descobre um local esondido e isolado, desde que o construtor da residência desapareceu um século atrás. É quando a menina acaba libertando estranhas criaturas que pretendem levá-la para o mundo das trevas e ela precisa convencer os adultos de que não se trata de uma fantasia e sim de uma estranha e assustadora realidade.

A trilha sonora marcante e a iluminação – ou a falta dela, se preferir – são características presentes em qualquer filme de terror. A diferença em Não tenha medo do escuro está na maneira em que esses elementos foram utilizados na maior parte do filme. Ao contrário de sacas de filmes do gênero que utilizam esses elementos à exaustão sem nenhuma propriedade, aqui eles funcionam de verdade. Apesar do espectador saber o que vai acontecer em diversas cenas, não há como não ficar de olhos grudados na tela quando uma das criaturas esgueira-se sob o lençol de Sally ou sentir o impacto visual da garotinha sendo arrastada para o porão aos gritos.


Não tenha medo do escuro é quase uma fábula de terror para crianças. O próprio título – que felizmente coservou-se em sua tradução do original – remete ao medo quase irracional que sentimos na infância. Os cabelos escorridos e melancólicos de Sally aliados a suas roupas vermelhas e escuras concedem uma certa elegância sombria presente em outros trabalhos assinados por Del Toro. A belíssima animação no início da projeção e a atmosfera gótica da casa reforçam o charme da película. Mas arrisco dizer que se Del Toro não estivesse envolvido, certamente Sally seguraria uma câmera digital ao invés da charmosa Polaroid.

No escuro o medo ganha formas e vozes, e no caso de Sally não poderia ser diferente. O problema é que as formas e vozes de Não tenha medo do escuro ganham corpo rápido demais. Em vez de apenas sugerir as criaturas para apresentá-las posteriormente, o filme estraga a surpresa antes das cenas mais promissoras, perdendo a oportunidade de brincar mais com o psicológico de Sally e minimizando a tensão que essas cenas deveriam instigar. Não que um filme de terror falhe ao mostrar o motivo do medo de seus personagens abertamente, mas nesse caso específico os monstrinhos que andam pela casa com objetos afiados não conseguem gerar o medo necessário para sustentar o filme e as cenas de terror que o roteiro impõe. O medo do escuro está justamente no fato de você não ver o que ele esconde, mas alguém esqueceu disso em algum ponto do roteiro. Outra falha grave é não explicar com firmeza a origem dessas criaturas que vemos em cena e como elas chegaram naquela casa, apelando para uma explicação barata na biblioteca local. Não temos nem mesmo certeza o que são essas criaturas. O roteiro apenas insinua que elas sejam fadas dos dentes, mas insinuar não é o suficiente e sentimos falta de uma solução mais firme.


Bailee Madison mostra-se uma feliz escolha e madura o suficiente para transmitir o medo que Sally sente. Mais do que gritar em cena, chamar pelo pai com medo ou fazer cara feia para a madrasta, Bailee Madison empresta uma densidade impressionante a sua personagem, carregando o filme nas costas do começo ao fim como se fosse gente grande. Guy Pearce interpreta mecanicamente o pai que não acredita na filha até o último instante e não acrescenta nada de interessante a fita. O papel que coube a Katie Holmes é tão mecânico quanto o de Pearce – a madrasta boazinha incompreendida pela filha do namorado -, e seu final é inesperado e diria que até fora de contexto.

A impressão que fica quando os créditos sobem é que, se Del Toro tivesse sido o homem por trás da câmera, o mundo ao redor de Sally teria sido muito melhor construído e o resultado teria sido muito melhor. Não tenha medo do escuro deveria ser uma belíssima fábula de terror cujo roteiro parece ter se perdido no meio do caminho em tentativas mal sucedidas de ser terror para gente grande, mas que ainda assim consegue funcionar pelos motivos citados.  É muito filme pra pouco Del Toro.