terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Janela Indiscreta (Rear Window – 1954)

 

Jeff (James Stewart) é um repórter incapacitado de exercer sua profissão temporariamente, por causa de uma perna quebrada. Suas fotos sempre foram de situações perigosas ao extremo, mas agora ele precisa urgentemente de algo para ocupar o seu tempo livre. Espiando através da janela de seu apartamento a vida dos vizinhos, ele passa a desconfiar que um homem matou sua mulher e escondeu o corpo. Com a ajuda de sua noiva Lisa (Grace Kelly), Jeff vai, a todo custo, tentar provar que está certo. Esta é a sinopse de Janela Indiscreta. E, da monumental obra hitchcockiana, Janela indiscreta é, por muitos, considerado um de seus melhores filmes. 

Tudo foi gravado em um único cenário dentro dos estúdios da Paramount. Durante todo o filme nos tornamos observadores junto com o personagem de James Stewart. Enquanto ele acompanha tudo avidamente sentado em sua cadeira de rodas, nós acompanhamos tudo com ele do lado de cá da tela. Porque durante os pouco mais que 100 minutos de filme é isso que Jeff e nós podemos fazer: observar. Ele, pela impotência imposta por sua condição física momentânea, enquanto nós por nosso não tão diferente estado de inação enquanto espectadores. Janela indiscreta é preenchido com um suspense sustentado por um voyeurismo involuntário, talvez o maior exemplar disso presente em todo o cinema. Se estamos acostumados a ter o diretor como um aliado para nos contar a história, aqui somos obrigados a nos sentar e a descobrir junto com Jeff, observar junto com Jeff, pensar junto com Jeff.  O limitado espaço físico do quarto em que Jeff se encontra é tão pequeno quanto a poltrona do cinema. A janela dita indiscreta pelo título pelo qual ele observa tudo é a câmera. As outras janelas são praticamente a definição de fotogramas. Os apartamentos observados por Jeff são oferecidos ao público pela câmera de Hitchcock sem nenhum pudor, que os enquadra como quem observa um quadro em movimento. 

James Stewart, ator recorrente na filmografia de Hitchcock, assim como Grace Kelly, estão fabulosos em seus papéis. James Stewart encarou com facilidade o papel de um protagonista nada hollywoodiano para os padrões da época. Ao invés de correr atrás dos bandidos, temos ele sentado em uma cadeira de rodas durante todo o filme, e no lugar de segurar uma arma, temos Jeff segurando binóculos e máquinas fotográficas. Grace Kelly, com a ajuda de um belíssimo figurino, parece uma verdadeira princesa, se me permite um trocadilho tão desgastado. 


Hitchcock brinca com as suspeitas do nosso protagonista. A todo instante somos levados a compartilhar de sua paranoia quase irracional e o filme cresce diante de nossos olhos pelo simples fato de também querermos saber o que de fato aconteceu – se aconteceu. A trama nos envolve imperceptivelmente. A construção de todo esse clima é ajudado pela fotografia que, se por um lado acaba dando o tom casual que o ambiente precisa, haja vista que tudo se passa em um quarteirão nova iorquino comum, por outro brinca com o jogo de sombras ao redor de Jeff. 
Embora o objeto de obssessão de Jeff seja bem claro, os outros personagens não foram escolhidos por qualquer motivo. Todos eles, com seus respectivos arcos narrativos, auxiliam na criação de um quadro afetivo que certamente acaba ajudando o personagem de James Stewart em algum momento a resolver seus próprios conflitos amorosos com Lisa. Se há alguma ressalva a fazer acerca disso, é que os personagens poderiam ter sido utilizados dentro do arco narrativo principal de forma mais ativa, envolvendo a trama inteira com um suspense que só é de fato palpável no final. Final esse em que Hitchcock nos oferece uma sequência brilhante em que uma fotografia escura, uma câmera meticulosamente posicionada para evidenciar a sensação de impotência e desconforto do personagem principal e um timing perfeito se mesclam para mostrar porque ele é considerado o rei do suspense.

Aristóteles adoraria Janela Indiscreta. O filósfo grego certa vez disse que o homem é um animal social. Ele precisa de outras pessoas para sentir-se pleno, pois a sociabilidade faz parte da nossa natureza. E essa sociabilidade é realizada através da linguagem. Em Janela Indiscreta, a linguagem fotográfica serve a Jeff como meio de interação com o mundo, assim como Hitchcock apropria-se da cinematográfica para fazer seu filme. Vendo por esse lado, Janela Indiscreta ganha tantas camadas de interpretação quantas você queira imaginar. Ou apenas observar. Tudo isso pelas mãos de um diretor que de indiscreto só tem o talento.