sábado, 22 de dezembro de 2012

O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man - 2012)


O aracnídeo mais famoso dos cinemas voltou com tudo renovado. Com Andrew Garfield vivendo Peter Parker e Marc Webb na direção, O Espetacular Homem-Aranha reinicia as aventuras do dito cujo no cinema. Comparar esse filme com os anteriores protagonizados por Tobey Maguire seria perda de tempo. Todos possuem seu próprio charme. E aqui esse charme ganha forma principalmente graças ao talento de Garfield, que empresta ao seu Parker uma vivacidade muito bem vinda. Marc Webb dirimiu meus temores em relação às cenas de ação, ainda que os efeitos especiais, enfeitados pelo 3D, algumas vezes tenham soado bastante artificiais. A melhor coisa do roteiro foi trazer para o foco narrativo o questionamento acerca da identidade de seu protagonista. Destaque para a química entre Andrew Garfield e Emma Stone. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cinzas e Neve (Ashes and Snow - 2005)


"Um elefante com sua tromba erguida é uma carta para as estrelas.
Uma baleia irrompendo é uma carta do fundo do mar.
Essas imagens são cartas para os meus sonhos.
Essas cartas são minhas cartas para você."

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Magic Mike (2012)


Magic Mike é o típico filme feito para pagar as contas de seu diretor. Depois de uma história apocalíptica em Contágio, um filme mais sério, chegou a hora de Soderbergh nos presentear com um de seus despretensiosos filmes. Magic Mike nos leva ao mundo dos strippers masculinos. Baseado na vida de Channig Tatum, somos apresentados a duas histórias cruzadas: enquanto Mike sente o peso do tempo chegando e quer sair do negócio para trabalhar em seus móveis personalizados, Adam é o novo membro do club que encontra no trabalho de stripper toda uma nova vida de prazeres. Assim, logo o filme assume duas linhas narrativas. A primeira é a divertida. Não podemos esquecer que Magic Mike é um filme de entretenimento e se concentra nos números de dança. Tatum é um ótimo dançarino e um ator sem expressões faciais, o que nos garante bons números de dança - embora não muito criativos - e insignificantes atuações. A segunda linha narrativa se concentra nos dramas de Mike e Adam. A estória deste último é muito forçada, com Soderbergh nos mostrando um mundo de drogas e violência no piloto automático. Já a  de Mike é melhor construída e nós podemos facilmente enxergar alguma profundidade na vida do stripper, como solidão e preconceitos, mas isso ainda soa artificial, principalmente porque esse contexto é cercado pelas constantes cenas de dança. A grande qualidade de Magic Mike está em Sodebergh nos mostrar um filme com sex appeal masculino no circuito Hollywoodiano. Nós somos naturalmente transportados para esse universo com a mesma facilidade que somos levados para milhões de filmes que exploram o sex appeal feminino no circuito comercial. Isso não faz de Magic Mike um ótimo filme, mas é muito importante. Destaque para Matthew McConaughey, o único ator de verdade no filme.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Festim Diabólico (Rope - 1948)


Em Festim Diabólico temos a história de Brandon e Phillip, que matam o amigo David estrangulado e escondem seu corpo em um grande baú que fica à vista de todos na sala de estar. Não satisfeitos, convidam os amigos e a família do morto para um jantar cujos pratos são servidos sobre o próprio baú, tudo para desafiar a suposta perfeição do crime cometido. Para deixar as coisas mais interessantes, Brandon faz questão de convidar um antigo professor, vivido por James Stewart -  provavelmente no papel mais obscuro dentre os que atuou nos filmes de Hitchcock -, que ele julga ser a única pessoa dentre os convidados apto a perceber e - mais importante - compreender os motivos do crime cometido, motivos esses que parecem ter saído das páginas de um Dostoiévski. O argumento de Festim é inovador porque desde os primeiros frames estamos cientes de que ali não há mistério para ser resolvido. Sabemos quem morreu, quem matou e o motivo do assassinato. O que nos resta é ficar de olhos grudados em sua trama maravilhosamente simples, cujos acontecimentos e seus desdobramentos são puramente lógicos.


Festim Diabólico se passa por inteiro em um único ambiente. O espaço limitado e a narrativa puramente lógica e cronológica possibilitaram Hitchcock realizar um filme cuja direção apuradíssima e montagem precisa dão a impressão de que ele foi filmado de uma só vez, algo que confere a obra não apenas uma estética positivamente teatral - o filme foi baseado em peça homônima - , mas fazem com que a audiência prenda a respiração durante os oitenta minutos que se seguem ao assassinato. Filmar o filme em um única tomada não foi possível, mas as tomadas incrivelmente longas fizeram do resultado final tão impressionante como se houvesse sido. A quase completa ausência de trilha sonora, com exceção da diegética - aquela oriunda dos próprios elementos em tela e incorporada pela narrativa - ajudam a construir o tom intimista e sufocante que a trama necessita.



O pouco espaço poderia nos levar a pensar que isso limitaria a deslocação e, portanto, a captura da imagem por parte do diretor, mas o que seria limitação, nas mãos de Hitchcock se torna seu maior trunfo. Sua câmera nos transforma em convidados da festa, permanecendo estática e fixa ou caminhando e observando pontos cruciais para o desenvolvimento da trama, do suspense ou da tensão. Um exemplo perfeito da habilidade de Hitchcock acontece quando a festa está perto do fim. Enquanto os convidados conversam fora do campo de visão da câmera, esta se mantém fixa diante do baú enquanto a empregada retira os pratos e candelabros de cima do mesmo, trazendo um punhado de livros que devem ser guardados ali, enquanto os personagens continuam conversando e nem mesmo os assassinos se dão conta do que acontece.

Os personagens vividos de forma espetacular por John Dall e Farley Granger retratam de forma brilhante as reações completamente opostas que se seguem a um assassinato. Enquanto Brandon revela um controle  racional e emocional impressionantes para quem acabou de matar alguém, Phillip tenta a todo custo se controlar e não os trair. Essas naturezas tão díspares tornam a tensão ainda maior. Provavelmente devido a sua forma original, os censores da época não perceberam que parte dessa tensão é sexual. Basta um olhar um pouco mais cuidadoso, principalmente nas primeiras cenas e naquelas que indicam que o apartamento possui apenas um quarto, para perceber o óbvio contexto homossexual entre os personagens principais.

Festim Diabólico é uma obra de arte. Nenhum ângulo é por acaso, nenhuma linha é banal e as atuações possuem a qualidade garantida da lendária direção de atores de Hitchcock. É o tipo de filme que pega a audiência pelo pelo pescoço e a faz ficar grudada na cadeira esperando ansiosamente o que acontecerá em seguida. Um filme que reafirma de forma redundante e contundente que Alfred Hitchcock é o mestre do suspense.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Disque M para Matar (Dial M for Muder - 1954)


Em Disque M para Matar somos apresentados a Tony Wendice, um jogador de tênis aposentado que elabora um plano para matar sua esposa, interpretada por Grace Kelly. Escrito dessa maneira a trama parece simples, mas é uma das mais complexas filmadas por Alfred Hitchcock. O roteiro intricado, engenhoso e repleto de reviravoltas inesperadas faz com que o espectador se veja torcendo tanto pelo alvo do assassinato quanto pelo marido que deseja liquidá-lo. A base do filme são seus diálogos, pois são através destes, muito mais que pelas ações, que todo o filme é construído. Onde algum diretor poderia pesar a mão em exaustivos flashbacks, o diretor inglês permite que seus atores desenvolvam todo o texto em longas cenas explicativas que prendem a atenção de quem assiste de uma forma hipnotizante. Lançado no mesmo ano que Janela Indiscreta, Disque M para Matar pode não ser tão celebrado quanto o primeiro, mas bem que poderia. Destaque para a sequência em que a personagem de Grace Kelly vai atender o fatídico telefonema e a câmera dá a volta em seu corpo até obter o mesmo ponto de vista do assassino, enquanto a marcante trilha sonora e o excelente jogo de sombras fazem o resto do trabalho.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mary Poppins (1964)


A história da babá mágica que literalmente vem dos céus segurando seu icônico guarda-chuva foi recontada diversas vezes e em diversas mídias, mas nenhuma versão moderna conseguiu resgatar o frescor e magia presentes no original de 64 estrelado por uma iniciante Julie Andrews, que ganharia o Oscar de melhor atriz pelo papel e ficaria eternizada pouco tempo depois ao protagonizar A noviça rebelde. Proveniente do punhado dos filmes Disney destinados à toda a família, Mary Poppins cumpre bem o seu papel ao divertir crianças e pais e trazendo mensagens positivas embutidas para todos. Talvez a mais importante seja para os próprios pais, uma vez que o filme sugere a maior transformação da trama no rígido Mr. Banks, pai da família que mora na rua das Cerejeiras, número 17. Mesclando live action e animação, efeitos especiais incríveis para a época e músicas bem divertidas - como não rir ao tentar pronunciar supercalifragilisticexpialidocious, a palavra que você usa quando não se tem nada a dizer? -, Mary Poppins é um filme infantil maravilhoso. Destaque para Dick Van Dyke e seus números de sapateado.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ricky (2009)


No terceiro filme da chamada trilogia da morte do francês François Ozon (precedidos por Sob a areia e O tempo que resta), encontramos Katie e Paco, uma casal absolutamente comum que começam uma história de amor absolutamente comum. Toda essa normalidade é interrompida quando nasce Ricky, um bebê que desenvolve nada menos que asas. Enveredando pelo realismo fantástico para contar uma história sensível e delicada, Ozon mostra o impacto da chegada de Ricky em uma família totalmente desestruturada, composta por Katie, Paco e Lisa, a pequena filha de Katie. E é de Lisa que tudo gira em torno. Ela é a verdadeira protagonista do filme. Todas as consequências das rachaduras familiares passam por ela, desde ser negada por seu pai biológico, passando por seu sentimento de exclusão diante do relacionamento de Katie e Paco, até a chegada de Ricky. Um dos melhores pontos do roteiro é nunca explicar de fato a natureza de Ricky confirmando que esse é um filme em que o espectador mais contribui do que recebe. Destaque para a interpretação da pequena Mélusine Mayance como Lisa, acima da média.

sábado, 13 de outubro de 2012

Akira (1988)


O filme de Katsuhiro Ohtomo nos leva a Neo-Tokyo, reconstruída depois de um cataclisma misterioso ocorrido no fim da Terceira Guerra Mundial. Misturando alta tecnologia e uma sociedade marginalizada, Akira é um dos exemplos mais latentes do cyberpunk presente no cinema, levando o dizeres high tech, low life - algo como "alta tecnologia, baixo nível de vida" - ao pé da letra. No filme de traços hipnotizantes de Ohtomo temos a história de Tetsuo, que depois de entrar em contato com uma experiência do governo, passa a desenvolver poderes devastadores e incontroláveis. O grande trunfo de Ohtomo foi mesclar elementos como a paranoia militar e governamental, o fascínio e terror diante do poderio bélico, a delinquência juvenil e o colapso social, assuntos enraizados na psique japonesa, com um adolescente sem controle, figura que sintetiza todos os medos e anseios do Japão. Para uma sociedade como a japonesa, nada seria mais assustador do que um adolescente incontrolável com poderes apocalípticos. Um filme intenso e violento que conquistou uma legião de fãs - e virou cult. Destaque para sua estranha trilha sonora que, aliada aos traços sem pudor de Ohtomo, fazem de Akira um filme inquietante.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Noviça Rebelde (The Sound of Music - 1965)


Julie Andrews e Christopher Plummer protagonizam um dos musicais mais celebrados da história do cinema.  Com freiras que cantam, crianças brancas e loiras que parecem ter saído direto dos comerciais da década de 60 e a Segunda Guerra dividindo o filme ao meio, A noviça rebelde poderia ter sido um fiasco ao mesclar elementos tão incomuns em uma só narrativa, mas seu roteiro bem estruturado, sua montagem precisa, suas músicas inesquecíveis e sua improvável história de amor entre uma péssima aspirante ao sacerdócio e um capitão da marinha permitiram que o filme se tornasse um clássico. Também deve-se reconhecer a flexibilidade narrativa presente no filme, que vai naturalmente de um extremo de leveza, diversão e bom humor para um de tensão e união causada pelo avanço nazista em terras austríacas, algo dificílimo de se fazer em um musical cuja proposta era não perder sua magia, e que aqui é realizado de forma soberba. Um filme que não envelhece, para ser visto e revisto! Destaque para as canções e números musicais que, perspicazmente, começam como continuações de diálogos, quase nunca sendo abertamente anunciados ao espectador, fazendo com que tudo aconteça da forma mais natural possível.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Vidas Amargas (East of Eden - 1955)


A história de Caim e Abel é uma das mais antigas do mundo. Quando Caim mata seu irmão, é então condenado a vagar ao leste do paraíso. Mas no filme de Elia Kazan o mito bíblico ganha uma roupagem deliciosamente moderna. Nele - e quaisquer semelhanças com os nomes não são coincidências - temos o patriarca Adam e seus dois filhos, Aron, o preferido, e Cal, a ovelha negra, interpretado pelo imortal James Dean. A princípio o filme de Kazan parece ser apenas uma releitura do mito em questão, mas logo camadas psicológicas são acrescentadas à trama criando uma dinâmica totalmente inesperada ao mostrar as tentativas de Cal de se tornar um ser humano melhor, ao mesmo tempo em que testemunhamos a decadência de Aron. É interessante notar como as definições de bem e mal atribuídas aos personagens provêm o tempo inteiro do pai e, no final do longa, quando a presença desse personagem na trama é questionada, os julgamentos criados pelo público ali de nada servem, fazendo com que o filme atinja com extremo êxito os questionamentos sobre a origem e a essência do bem e do mal que se propôs a fazer. Destaque absoluto para James Dean, que representou de forma soberba o típico personagem mal compreendido que o faria imortal, assim como para a direção de atores de Elia Kazan.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Era uma vez em Gotham City


Gotham City é uma cidade dominada pelo crime e pela corrupção. Sombria e violenta, eis que um homem resolve enfrentar as forças do mal. Órfão de pai e mãe desde cedo, milionário e com um trauma envolvendo morcegos, Bruce Wayne veste um manto negro e se torna Batman, um herói sombrio que combate tudo de ruim nas próprias sombras em que o mal habita. E foi nessa história que os olhos atentos de Christopher Nolan viram um potencial nunca antes perscrutado no cinema quando o assunto era quadrinhos. Gotham City finalmente havia sido encontrada.


Quando o pequeno Bruce Wayne caiu em um poço e se viu cercado de uma revoada de morcegos, estes se tornaram seu maior medo, e quando viu seus pais serem assassinados na sua frente na saída da ópera, a vingança, sua melhor amiga. Quando o garoto se tornou homem, Nolan acertadamente gastou boa parte do primeiro filme de sua trilogia, Batman Begins, para mostrar a transformação que ocorreu em Bruce para ele se tornar Batman. Ele aprendeu a fazer com que seu medo se tornasse o maior medo de seus inimigos e aprendeu a diferença entre vingança e justiça.

Gotham City é um microcosmo que representa o coração de cada homem e Batman é aquilo que nós temos que acreditar para salvar a nós mesmos de nos tornarmos aquilo que mais tememos. Claro que combater o mal é vital para a salvação de Gotham, mas o momento do combate é apenas o ápice simbólico da verdadeira guerra. O vilão que Bruce Wayne deve enfrentar não é Ducard que quer destruir Gotham por acreditar que ela não tem mais salvação, mas sim a ideia de que Gotham não pode ser mais salva. Para isso, ele deixa de ser um homem para se tornar uma ideia, uma bandeira, um símbolo. Bruce Wayne se torna Batman, pois apenas uma ideia pode ser tão poderosa quanto outra.

Nolan conseguiu imprimir um tom contemporâneo ao seu Batman ao sugerir não um herói que combate o mal, mas um homem comum que transforma-se em algo muito maior que ele mesmo para instigar cada cidadão de Gotham a fazer o mesmo. Quando afirmei que combater o mal era apenas o ápice da verdadeira guerra, é porque essa guerra é travada dentro de todo homem em Gotham City, e Batman é aquilo que os encoraja a escolher o bem.


Depois de um início profundo, Nolan nos presenteia com uma obra perturbadora que virou um clássico instantâneo. Se em Batman Begins tudo gira em torno do medo, em The Dark Knight temos isso ampliado através da dualidade presente entre Batman e o Coringa, que tenta a todo custo mostrar ao próprio Batman que tudo que ele acredita é uma mentira e, assim como Ducard, que Gotham não tem salvação. Se no primeiro filme Gotham era um personagem quase metafórico, aqui ela ganha ares de protagonista ao ser posta à prova pelo vilão interpretado por Heath Ledger, do atentado terrorista duplo aos navios à corrupção do aparentemente incorruptível Harvey Dent, que representava para Gotham tudo que Batman não poderia ser.

Com um desenvolvimento primoroso e um final digno de palmas, esse segundo ato se firma como o melhor filme da trilogia de Nolan. Aqui, Kate Holmes, que destoava completamente do tom sombrio de toda obra, foi acertadamente substituída, e Alfred veio um tom menos engraçado, piadas que na primeira parte também destoavam por seu excesso. O Coringa de Heath Ledger dispensa apresentações. De sua brilhante atuação, aliada a um roteiro impecável, nasceu um vilão que entrou para a história do cinema ao lado de Hannibal Lecter e Darth Vader.



Depois do sacrifício de Batman no final do segundo filme, chegamos à tão aguardada conclusão da trilogia. Em The Dark Knight Rises temos um Bane interpretado por Tom Hardy que chega a Gotham City com o único propósito de destruir. Ele é um vilão assustador porque faz isso de diversas formas, destruindo o corpo da cidade, com seus explosivos, sua alma, ao revelar as verdadeiras faces de Harvey Dent, e o próprio Batman, reduzindo-o apenas a Bruce Wayne. É nesse momento que o filme de Christopher Nolan desabrocha. Ele se reinicia. Leva Wayne e o espectador para o primeiro filme e toda sua filosofia acerca do medo para que o homem volte a se tornar a lenda.

Apesar desse foco específico, o terceiro filme da trilogia de Nolan não é ruim, mas é claramente o pior dos três, possuindo erros crassos facilmente notados por um público mais exigente. Pressionado pelo sucesso do filme anterior, Nolan de fato cria um filme grandioso, mas também acaba concebendo um filme grande, fazendo com que sua maior virtude seja também seu maior pecado. Muitas vezes as tentativas de torná-lo um grande filme são tão irritantes que o resultado é apenas um desafio ao bom senso e ao realismo que sustentou os dois primeiros filmes. O principal problema aqui é ter uma profundidade um tanto inferior a dos dois primeiros, lacuna que indiretamente tenta ser suprida por reviravoltas do seu intricado roteiro, uma montagem paralela de qualidade inquestionável e pela excepcional trilha sonora de Hans Zimmer.

Entretanto, esses erros se tornam menores ao encararmos a trilogia como um todo. Nolan foi o primeiro cineasta a perceber e colocar em tela a profundidade presente em um personagem que até então sempre foi tratado como mero entretenimento pop e, por esse motivo, já merece o reconhecimento que recebeu ao longo da feitura dos três filmes. Com um final satisfatório que encerra a trilogia com o respeito que ela merece, temos como resultado a obra cinematográfica mais madura proveniente dos quadrinhos já realizada, e que deve ser utilizada como referência por um bom tempo. 

sábado, 4 de agosto de 2012

Da China, com amor

Faz tempo que o cinema oriental deixou de orbitar apenas ao redor do Japão. Nos últimos anos, o cinema da China cresceu e tem chamado atenção da crítica mundial por produzir obras em um terreno onde não havia rotação de culturas e os filmes de artes marciais monopolizavam o plantio. Esse novo cinema chinês é importante porque herda uma postura das Nouvelles Vagues europeias e do cinema americano produzido nas décadas de 60 e 70 que se alia a uma maneira muito própria de se colocar.

É dentro desse contexto que surge Wong Kar Wai, um dos mais interessantes diretores desse movimento contemporâneo. Com uma estética que imediatamente salta aos nossos arredondados olhos ocidentais, em um primeiro momento ele pode parecer muito mais um esteta do que um diretor propriamente dito. Mas Wong Kar Wai vai além ao criar um vínculo quase inerente entre forma e conteúdo, fazendo com que antes de ser apreciada como um mero objeto, a imagem tenha um significado.

Essa combinação faz com que tudo nos filmes de Wong Kar Wai pareça exuberante na mesma medida em que é intimista. Exuberância que deriva das imagens quase experimentais, das películas altamente granuladas, das cores fortes, das alterações de velocidade, dos filtros, luzes e texturas; intimidade que surge em metáforas, uma vez que seus filmes falam, através dessa rica miríade de artifícios técnicos, da poesia escondida nos pequenos acontecimentos do cotidiano. E quase sempre esses pequenos acontecimentos são os encontros e desencontros amorosos de seus personagens solitários e errantes.

Amores Expressos - 1994
Em Amores Expressos (Chung Hing sam lam, 1994), temos um filme dividido ao meio por duas histórias muito parecidas. Na primeira delas, temos um policial com um ritual cheio de significados. Todos os dias ele compra uma lata de abacaxi em conserva cuja data de vencimento deve ser dia primeiro de maio, data que sua namorada marcou para eles acabarem o relacionamento. Quando esse dia chega, ele promete a si mesmo que vai se apaixonar pela primeira mulher que entrar pela porta do bar onde está sentado. E eis que surge uma traficante de drogas com uma peruca loira barata que parece ter saído direto dos tempos dourados de Hollywood, vestindo uma capa de chuva e óculos escuros porque, segundo ela, nunca se sabe quando vai chover ou fazer sol. Na segunda metade do filme, temos outro policial que tenta esquecer um relacionamento enquanto conversa com objetos inanimados nas noites solitárias de seu apartamento. Solidão tão grande que ele sequer percebe que aquela moça franzina que trabalha na lanchonete em que ele come todos os dias e escuta California Dreamin’ do The Mamas and Papas no mais alto volume está apaixonada por ele.

Se a primeira é uma história de amor com data de validade, a segunda é uma sem previsão de fabricação, em que temos dois personagens tentando lidar com uma solidão muito profunda e semelhante. Provavelmente o filme mais despretensioso de Wong Kar Wai, Amores Expressos parece ter sido dirigido com a energia de um diretor que acabou de sair da escola de cinema. Todos os elementos da estética do diretor citados anteriormente estão presentes aqui, onde é possível perceber a marcante fotografia de Christopher Doyle, contribuinte recorrente do diretor chinês.

Felizes Juntos - 1997
Em Felizes Juntos (Chun gwong cha sit, 1997) temos um casal chinês que vai à Argentina com o propósito de recomeçar. E vamos recomeçar são as palavras que sustentam o roteiro e que estão ali o tempo inteiro lembrando os personagens o que estão tentando fazer ali. Po-Wing é um homem intempestivo e extrovertido, enquanto Yiu-Fai se mostra quieto e reservado, dois personagens que tentam continuar juntos a despeito de suas personalidades absolutamente díspares.

Algumas das primeiras cenas em P&B mostram os personagens perdidos enquanto vão em busca das cataratas do Iguaçu, cuja figura está impressa em um abajur barato e luminoso que trouxeram da China junto com as esperanças de darem certo. Essas cenas iniciais mostram exatamente o estado em que os personagens se encontram, tentando recomeçar, mas sem saber muito bem como. Somente depois que discutem e resolvem recomeçar mais uma vez é que a tela ganha os tons crus, viscerais e vívidos que fizeram a fotografia elevar o filme ao status de soberbo.

O que se segue em tela são as tentativas infrutíferas dos dois de ficarem juntos (perceba a ironia do título), cada um a sua maneira e ambos limitados por suas personalidades complexas e contrastantes. Como todo filme que se preze, as imagens de Felizes Juntos falam muito mais que seus eventuais diálogos, mas seu diferencial está nas riquíssimas metáforas escondidas nas mais diversas cenas dirigidas com brilhantismo por Wong Kar Wai, com destaque maior para aquela em que os dois protagonistas dançam tango no meio de uma cozinha velha em ruínas. Por Felizes Juntos, Wong Kar Wai levou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes.

Nesse filme em especial é possível perceber a relação de Wong Kar Wai com a cultura latina. Como admirador da obra de Manuel Puig e da música latina levada para os bares de Hong Kong na década de 60 pelos filipinos, em Felizes Juntos temos inclusive Cucurrucucu Paloma interpretada por Caetano Veloso, mesma versão que mais tarde seria utilizada por Almodóvar em seu Fale com ela (Hable com ella, 2002). Essa nova geografia cinematográfica que se estabelece em seus filmes gera um choque de fronteiras culturais que apenas evidencia positivamente o sentimento de nomadismo presente em seus personagens.

Amor à flor da pele - 2000
Em Amor à flor da pele (Fa yeung nin wa, 2000), Su Li-zhen e Chow Mo-wan são vizinhos em um pequeno aglomerado de apartamentos em Hong Kong. Ambos são casados e começam a desconfiar que seus respectivos cônjuges são amantes. Mas o inesperado acontece quando Su e Chow se vêem apaixonados um pelo o outro. É então que a câmera de Kar Wai parece dançar com seus personagens, com os movimentos calculados, os olhares tímidos e as palavras quase nunca ditas, tudo pontuado por uma trilha sonora que evidencia cada um desses gestos velados, vestindo cada cena com uma nova camada de interpretação que apenas enriquece a trama, além de conferir mais erotismo a cada um desses movimentos. Se havia alguma dúvida de que Wong Kar Wai seria um bom diretor, esse filme dilui todas elas, mostrando o chinês dirigindo com extrema habilidade e sensibilidade cenas enganosamente simples com ângulos meticulosamente calculados.

O brilhantismo de seu filme está em entrelaçar a perspectiva do amor e a da traição de tal maneira que ambas pareçam a mesma coisa. Os cônjuges de Sun e Chow, por exemplo, nunca têm os rostos mostrados. É dessa forma que Kar Wai representa o repúdio que os protagonistas sentiriam por si mesmos se ficassem juntos, como se, ao fazerem isso, a câmera também fosse lhes virar a lente. Seus personagens se encontram e se apaixonam, mas esse sentimento nunca é consumado, apesar do título indicar exatamente o que ambos estão sentindo. Amor à flor da pele é uma história de amor que não acontece e é considerado pela prestigiosa seleção da Sight & Sound um dos 50 melhores filmes da história.
 
Para encerrar, há um pequeno e maravilhoso arco narrativo em Felizes Jutos que para mim resume o que é o amor filmado por Wong Kar Wai. Yiu-Fai conhece um rapaz em seu trabalho que possui uma ótima audição. Sentados em um bar barulhento, o rapaz consegue ouvir uma conversa distante mesmo sob todos os ruídos.  Certo dia esse rapaz revela que economizou dinheiro suficiente para conhecer o fim do mundo, no extremo sul do continente, onde existiria um farol capaz de fazer com que todas as tristezas reveladas em voz alta por aqueles com o coração partido ficassem para trás.

Antes de ir dançar, o rapaz tira um gravador do bolso e pede para que Yiu-Fai diga qualquer coisa para que ele levasse consigo. Quando finalmente chega ao farol e tenta ouvir a gravação de Yiu-Fai, o rapaz de audição tão singular não consegue ouvir nada. Porque naquele dia, ao tentar dizer suas tristezas em voz alta para o gravador, Yiu-Fai apenas chorou. E esse é exatamente o cinema de Wong Kar Wai. É a poesia latente que se esconde e se revela nos abismos que surgem entre seus personagens mesmo quando eles se tocam. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Valente (Brave - 2012)


Se todo filme da Pixar gera expectativa, desde que o estúdio anunciou que seu próximo longa seria protagonizado por uma personagem feminina, a expectativa cresceu um pouco mais. Primeiro, porque não é muito comum animações protagonizadas por mulheres que aparecem em seus primeiros frames oficiais segurando arco e flecha; segundo, porque seria curioso ver como a Pixar lidaria com um personagem tão estereotipado como o da princesa; e terceiro, porque ela tinha cabelos ruivos que são um espetáculo a parte.

Merida é uma princesa que não quer ser princesa. Depois de discutir com a mãe e parar no meio da floresta, acaba seguindo luzes mágicas que a levam ao encontro de uma atrapalhada bruxa que parece ser a solução para todos os seus problemas. Merida quer um feitiço para que ela possa seguir seu próprio destino, e é no momento em que esse feitiço é consumado que Brave leva o espectador por um caminho mágico, inesperado e tão selvagem quanto a própria protagonista.


Comparar Merida com outras princesas de filmes de animação chega a ser um insulto. Isso porque esse estereótipo nunca foi desconstruído com tanto vigor anteriormente. Os elementos tão presentes nos filmes de animação protagonizados por princesas foram massacrados um por um. Seus volumosos, rebeldes e cacheados cabelos ruivos vão de encontro com o loiro/preto/liso/ondulado que até então eram absolutos; não há um sidesick que a siga, pelo menos não no conceito clássico do termo; não há príncipe - e, o mais importante, ela não se importa em ter um. E onde o roteiro se mostra mais maduro é no fato de não haver vilões, fazendo com que Merida tome por antagonistas as situações surgidas de seus próprios dilemas, coisa que cineastas como Hayao Miyazaki fazem de forma brilhante há anos e que ainda é bastante incomum nas animações ocidentais.

Talvez o problema mais latente em Brave seja alguns de seus personagens secundários, mais especificamente os chefes e filhos dos clãs que procuram uma aliança através do casamento da princesa Merida. Eles são tão caricatos que não há como o espectador vê-los como ameaça em momento algum. Além disso, não são engraçados, espaço cômico que poderia ter sido ainda mais explorado pelos três irmãos de Merida, que roubam todas as cenas (e doces) em que aparecem. 

Mas esses pequenos defeitos não conseguem minimizar a qualidade e maturidade do longa. Perceba que o fato da protagonista ser feminina é apenas a primeira camada em um filme enganosamente prosaico. Afinal, ela é uma protagonista feminina, mas em momento algum age como a mulher que os outros personagens ou o espectador mais conservador espera. Ela possui características e habilidades físicas geralmente atribuídas a personagens masculinos, mas isso é posto em tela de forma sensível, nunca caricatural. Outro ponto muito interessante é que a personagem mais importante do longa depois de Merida também é feminina. Um filme com duas personagens protagonistas femininas cujo assunto principal entre as mesmas não gira em torno de homens não é algo fácil de ser encontrado, dificuldade essa a que me refiro a nível de toda história do cinema mundial.


Brave aborda o conflito entre mãe e filha, conceito amplamente utilizado em comédias americanas das décadas passadas, principalmente nos enlatados produzidos para o público adolescente. A principal diferença é que pela primeira vez essa temática é abordada em um filme de animação feito sob encomenda para o público infantil. A coragem de Brave está justamente em inserir uma nova leva de valores em um público tão carente de estímulos não-distorcidos, ao mesmo tempo que incita os pais a refletirem em como agiriam se seus filhos não se tornassem aquilo que eles sempre quiseram – algo que certamente não acontece apenas em castelos da Escócia.

O visual do filme é impecável. Ao mesmo tempo em que senti falta de uma gama maior de cenários, gostei do fato do filme ter se concentrado no castelo e suas proximidades, evidenciando o fato de que, para encontrarmos nossos destinos, não precisamos ir muito longe. O terceiro ato do filme é comovente, surpreendendo o espectador com a explicação de detalhes antes imperceptíveis, como a essência das luzes mágicas que guiaram Merida durante todo o filme.


Assim como Jogos Vorazes conseguiu mostrar a um público adolescente quase anestesiado que mulheres não são simplórias quanto nove em cada dez filmes produzidos para eles fazem parecer, Brave é importante porque faz coisa parecida entre o público infantil, revelando territórios até então ignorados e que timidamente começam a ser explorados pela indústria. Com um roteiro simples, porém realizado com bastante maturidade, Brave não é o tipo de filme que foi feito para fazer tanto sucesso quanto seus companheiros de estúdio protagonizados por homens. Mas é o tipo de filme que precisava ser feito.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Para Roma, com amor (To Rome with love - 2012)



Continuando seu tour cinematográfico ao redor do mundo, Woody Allen chega à mais famosa cidade italiana. Aqui Allen nos apresenta quatro histórias distintas que acontecem em Roma. A melhor e mais importante delas é a protagonizada pelo próprio diretor que, interpretando um pai que vai à Itália com a esposa encontrar a filha que vai casar, acaba descobrindo no pai de seu genro um talento nato para a ópera. As melhores linhas do roteiro estão nessa esquete, saídas da boca de um Woody Allen mais velho e afiado. Uma segunda história envolve um casal que vai à Roma passar a lua de mel e acaba se envolvendo em uma trama inesperada de traição - com a participação de uma Penélope Cruz de parar o trânsito. Aqui, Allen parece dizer com todas as letras que uma pulada de cerca pode fazer muito bem ao casamento, coisa apenas insinuada com certo recato em outras de suas obras. Em uma terceira esquete, acompanhamos mais uma história de traição, dessa vez protagonizada pelos ótimos Jesse Eisenberg e Ellen Page - esta última com uma personagem feminina fascinante. Aqui Allen optou por colocar um Eisenberg mais velho interpretado por Alec Baldwin visitando seu próprio passado à la Meia-noite em Paris, o que fez com que a narrativa perdesse toda a força nostálgica que deveria ter. Por último, temos Roberto Benigni que se vê transformado em uma celebridade da noite para o dia em uma trama que mais cansa do que faz rir, mas cujo ótimo desfecho questiona a fugacidade da fama como metáfora para a vida. Com um roteiro marcado pelo inusitado, essa última empreitada de Woody Allen diverte, mas passa longe de ser uma homenagem, e todas as tentativas de fazer uma soam totalmente artificiais. Esse foi um filme feito em Roma, e não para ela, e basta dar uma olhada em Manhattan ou Meia-Noite em Paris para notar as diferenças crassas. Destaque para a interpretação de Allen que, como diretor, não parece amar Roma tanto assim.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O Mágico de Oz (The Wizard of Oz - 1939)


Todos conhecem a história da garota mais famosa do Kansas criada por Lyman Frank Baum que ganhou as telas do cinema em 1939 pelas mãos de Victor Fleming. Seu nome é Dorothy que, levada por um tornado junto com seu cachorrinho Totó, acaba parando na maravilhosa terra de Oz. O filme inicia-se em tons de sépia para retratar o mundo de Dorothy e, quando ela finalmente abre a porta de sua casa e entramos em Oz, a tela explode em cores, em uma das utilizações mais incríveis do Technicolor já feitas no cinema. Tudo é apenas realçado pela direção de arte impecável recorrente na filmografia de Fleming. A magia de O Mágico de Oz não está apenas em ser um dos melhores e mais cultuados filmes americanos de todos os tempos, mas por ser um filme infantil absolutamente sincero que conseguiu, em plena Guerra, fazer com que as pessoas acreditassem que ainda era possível sonhar. Destaque para a canção Over the rainbow, imortalizada na voz de Judy Garland, que deixou seu rosto carimbado na história do cinema ao interpretar com maestria uma garotinha de 12 anos quando, na verdade, tinha 16.

domingo, 24 de junho de 2012

Sombras da Noite (Dark Shadows - 2012)



No século XVIII, o casal Collins parte de Liverpool, Inglaterra, para começar uma nova vida na América onde, ao longo dos anos, constroem um pequeno império. Tudo muda quando seu filho, Barnabas - interpretado por Johnny Depp -, quebra o coração de Angelique - vivida por Eva Green -, que sempre o amou em segredo. Mas Angelique era uma bruxa e, como vingança por ter sido ignorada e trocada por outra, condena Barnabas a ser um vampiro e enterra-o vivo para que ele sofra para sempre. É nesse ponto que o filme pula para o ano de 1972, dois séculos depois dos acontecimentos mostrados no prólogo, onde Barnabas é acidentalmente libertado. Esse é o pontapé do novo filme de Tim Burton estrelado por Johnny Depp. 

Depois que Barnabas é libertado, o filme ganha instantaneamente dois caminhos a serem percorridos ao longo de sua projeção: o lado mais sombrio, em que o vampiro iniciaria sua vingança contra a bruxa que o aprisionou, e o divertido, em que ele se depararia com uma realidade completamente diferente da que vivia há dois séculos. Entretanto, o roteiro não consegue balancear esses dois caminhos, levando o espectador à frustração ao não conseguir decidir qual deles percorrer.

As primeiras cenas após a libertação de Barnabas, sendo elas a tirada envolvendo o símbolo do McDonald's e a total inabilidade do vampiro diante de uma simples estrada, mostram o enorme potencial cômico do longa e servem para começar o segundo caminho que citei anteriormente. Essa disparidade é apenas acentuada quando Barnabas volta para sua casa e encontra Elizabeth Collins (Michelle Pfeiffer), a atual matriarca dos Collins, Roger Collins (Jonny Lee Miller), seu irmão, a rebelde Carolyn (Chloë Moretz) e o jovem David (Gulliver McGrath), além do jardineiro vivido por Jackie Earle Haley, a psiquiatra interpretada por Helena Bonham Carter e a babá Josette (Bella Heathcote).

Mas apesar de possuir um caminho cômico promissor, o filme de Burton peca pela inconsistência de seu roteiro. Se o caminho principal a ser percorrido pelo mesmo era o acerto de contas entre o vampiro e a bruxa, esse se revela uma fonte de problemas que tenta se salvar no meio das tiradas cada vez mais escassas ditas pelo personagem de Johnny Depp, e os maiores deles estão concentrados nos arcos narrativos de seus personagens secundários. 

Os problemas começam antes mesmo da libertação de Collins, quando a babá Josette chega na mansão para cuidar de David. Em uma das primeiras cenas a personagem de Chloë Moretz deixa a entender que o menino é estranho e problemático, mas não demora muito para que essas palavras se percam no ar e isso sequer seja comprovado durante o longa, fazendo com que o personagem do garoto perca sua importância. Para cuidar do garoto temos a psiquiatra vivida por Bonham Carter que, sem trocar uma palavra com ele durante pouco mais de uma hora de projeção, está ali apenas para justificar a presença sempre certa da mulher do diretor em seus filmes e protagonizar um arco narrativo sem nenhuma importância ao lado de Depp. É uma pena ver uma atriz tão boa sendo totalmente desperdiçada, pois sua presença não se justifica em tela, sendo sua personagem totalmente descartável, caso similar ao do pai de David. Bella Heathcote, que interpreta dois personagens, mostra-se totalmente sem graça.

Não é coincidência o roteiro tentar disfarçar sua inabilidade em lidar com tantos personagens livrando-se deles de alguma forma. Ele tenta homenagear todos os personagens oriundos da série na qual o filme é baseado, mas o que consegue é apenas ir de um arco narrativo a outro sem desenvolver nenhum, resultando em personagens vazios e sem empatia. Para completar, perdi as contas das transições de cena que eram feitas com imagens das ondas do mar batendo nas pedras, não me surpreendi com a cena final totalmente previsível e descartável e ainda não consegui me decidir se me constrangi mais em ver um fantasma disfarçado de fantasma (?) com um lençol (??) ou com a insinuação de sexo oral protagonizada por Helena Bonham Carter.

Se por um lado os melhores personagens secundários em tela são a maravilhosa Pfeiffer e a já talentosa Moretz, os principais são absolutamente cativantes. Enquanto Depp mostra-se contido e quase sisudo na composição de seu vampiro, quase nunca sorrindo e quase sempre dizendo as melhores linhas do roteiro, Eva Green mostra uma bruxa à altura, diversificando seu tom de voz a medida que seu personagem se desenrola e conseguindo transmitir a sexualidade e o perigo que ele exige. Uma das melhores cenas do longa é protagonizada pelos dois. Além disso, como é de se esperar de um filme de Tim Burton, a direção de arte é impecável, desde a caracterização de seu personagem principal que, diga-se de passagem, sempre alavanca a interpretação de Depp, aos detalhes que compõem a mansão dos Collins, que parece resistir às inovações do novo século da mesma forma que seu dono. 

No desfecho do acerto de contas entre Barnabas e Angelique, o roteiro pesa a mão mais uma vez. Dark Shadows foi baseado numa série televisiva exibida na TV americana até a década de 70 recheada de vampiros, bruxas, vampiros, fantasmas e derivados. Um dos problemas do filme de Burton está justamente na falta dessa diversidade. Durante o filme inteiro nos questionamos a existência plural desses seres - afinal, o que nos é mostrado são apenas uma bruxa, um vampiro e um fantasma - e no final, como se quisesse corrigir essa falha, indescritivelmente nos são revelados personagens com o único objetivo de tornar o desfecho o mais pirotécnico possível. 

Sombras da Noite mostra-se um projeto idealizado com bastante carinho por Burton e Depp e realizado de forma bastante irregular. Não conseguindo se decidir entre o gótico e a comédia, o filme acaba e a impressão que fica é que Tim Burton se perdeu nas próprias sombras que decidiu gravar. Para o espectador, fica um sorriso sem graça e a dúvida de que se fizeram bem em tirar Dark Shadows do túmulo onde até então descansava em paz.

sábado, 16 de junho de 2012

O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le papillon - 2007)



Imagine você sofrer um acidente cerebral de uma hora para a outra e acordar sem conseguir mover quase nada. Sua consciência ainda está intacta. Você consegue pensar, ouvir e sentir, mas não consegue sequer abrir a boca para pedir um copo d'água, pois a única coisa que você consegue mover é seu olho esquerdo. Isso foi o que aconteceu com Jean-Dominique Bauby, editor de uma das revistas de moda mais conceituadas do mundo.

O primeiro desafio para transpor uma história tão forte para as telas do cinema foi a do diretor Julian Schnabel. Por melhor que fosse o roteiro, o filme não funcionaria se a história não envolvesse o espectador, conceito básico do cinema que tropeça no fato do protagonista não se mover durante o filme inteiro. Se a direção optasse apenas por mostrar o drama de Bauby objetivamente, o roteiro perderia sua força dramática e narrativa porque, primeiro, Bauby seria mostrado apenas como um deficiente e o espectador seria apenas um observador passivo de sua condição e, segundo, provavelmente o roteiro teria que compensar a atípica falta de movimento de seu protagonista focando a câmera nos personagens secundários, quando o ponto sempre foi e não poderia deixar de ser Jean-Dominique.


O que Schnabel fez para suprir todos esses problemas foi de uma simplicidade quase enganosa, de uma ousadia arriscada e de uma perspicácia digna dos prêmios que recebeu. Como o protagonista do filme mexia apenas um olho, Schnabel levou ao pé da letra a tese de que a câmera pode ser o olho pelo qual o cineasta vê o mundo e a colocou do ponto de vista do olho de Bauby. Através da câmera subjetiva - com mudanças de ângulos, focos e lentes, construindo a visão do personagem tanto literal quanto metaforicamente - o diretor nos concede a possibilidade de entrar no casulo em que vive o protagonista e termos a ideia exata de tudo que ele sente. Esse artifício quase metalinguístico somado aos pensamentos de Bauby em off é o que nos permite ser Jean-Dominique Bauby durante pouco mais de cem minutos. 

Quando Jean-Dominique acorda no hospital depois de seu AVC, o que logo chama a atenção do espectador, além da inesperada e já citada subjetividade da câmera, são as cores fortes e radiantes que compõem os fotogramas que se seguem, com cenas que parecem estar cobertas de luz. Isso prevalece até o fim do filme, em todas as tomadas gravadas do ponto de vista de Bauby, como se a soberba fotografia quisesse gritar ao protagonista que a própria vida é soberba. A prova disso é que, quando o que nos é mostrado são flashbacks ou cenas filmadas com câmera objetiva, com o distanciamento que uma narração em terceira pessoa exige, a fotografia parece muito menos exuberante. Todos esses detalhes técnicos aliados a uma montagem sensível e inteligente apenas potencializam a narrativa.


Para ajudar Jean-Dominique a se comunicar com o mundo, sua fonoaudióloga desenvolve um sistema tão simples quanto trabalhoso, em que ela dita as letras do alfabeto na ordem em que elas mais são utilizadas na língua francesa, cabendo a Bauby piscar na letra que deseja para formar palavras e frases para se comunicar com o mundo ao seu redor. Esse artifício não foi um desafio apenas para o protagonista. O roteiro teve que lidar com as dificuldades de um sistema relativamente lento em um filme em que o ritmo era crucial para que a narrativa se desenrolasse de forma eficiente. Para resolver esse problema, a montagem sensível e inteligente que citei anteriormente foi crucial, mostrando a evolução do processo no ritmo certo. Além disso, o roteiro por si só encontrou subterfúgios para escapar das armadilhas impostas por ele mesmo. Nas primeiras cenas em que o sistema é utilizado e a fonoaudióloga dita as letras lentamente, os pensamentos em off do protagonista suprem o ritmo veloz que a cena necessitava para não se tornar maçante. Em outra, em que Bauby dita que quer morrer, o ritmo diminui, o pensamento em off sai de cena e a câmera foca na médica que desvenda a mensagem, tudo para que aquela simples frase ganhe um peso muito maior do que se fosse  apenas pensada por Bauby e entregue ao espectador de forma tão simplista.


As atuações impedem que o filme se torne um melodrama barato. Como se não bastasse a atuação sincera de Mathieu Amalric na pele de Jean-Dominique, temos um time de coadjuvantes de peso. Emmanuelle Seigner, atriz que vive a ex-mulher de Bauby, possui um dos melhores momentos do filme junto com Amalric, quando tem que atender o telefonema daquela que aparentemente causou sua separação e se vê obrigada a se comunicar com a mesma. Por outro lado, temos Marie-Josée Croze encarnado a dedicada fonoaudióloga de Bauby e o consagrado Max Von Sydow vivendo o pai do mesmo, ambos também protagonizado uma das melhores cenas de um filme recheado de cenas da mesma qualidade. Acertadamente o roteiro não se preocupa em aprofundar as relações de Jean-Dominique mostradas através dos flashblacks. Afinal de contas,  a relação que mais interessa é a de Dominique com o mundo em si.

E essa relação atinge seu ápice quando o editor escreve o livro que dá nome ao filme apenas piscando o seu olho esquerdo. Sua arte é aquela que o liberta dos limites de seu próprio corpo. É durante a feitura desse livro que o homem finalmente se livra de seu pesado escafandro e lentamente a borboleta rompe seu casulo, resultando em uma obra de arte em que nós podemos pegar emprestado o escafandro de Bauby e adentrar em seu casulo para nos vermos de uma forma que nunca nos vimos. De uma forma luminosa e assustadora que nos faz refletir sobre a grandeza imensurável de estarmos vivos.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Dirigindo no escuro (Hollywood Ending - 2002)


A metalinguagem sempre foi um artifício utilizado por diversos diretores para criticar, enaltecer ou simplesmente retratar a feitura de um filme. Nesse filme de Woddy Allen, o cineasta conta a história de um diretor interpretado por ele mesmo que tenta voltar ao hype hollywoodiano, mas que no primeiro dia das gravações adquire uma cegueira psicossomática. Apesar da cegueira do personagem interpretado por Allen - que pode ser encarada tanto literal quanto metaforicamente - ser uma clara alfinetada à qualidade dos filmes comerciais produzidos pela indústria americana nos últimos anos, esse propósito se perde na tela em detrimento das desventuras do cineasta cego e suas relações amorosas, que apesar de possuirem sequências engraçadas, acabam ficando repetitivas e enfadonhas. Um argumento digno de Allen um pouco perdido no meio de piadas não tão dignas de Allen assim. Destaque para um final brilhante que casa perfeitamente com o título e a proposta do filme, mas que parece chegar tarde demais.

domingo, 27 de maio de 2012

Aqui é o meu lugar (This must be the place - 2011)


Aqui é o meu lugar é um filme maravilhoso do começo ao meio. Nele encontramos Sean Penn vivendo na pele de um rockeiro aposentado que fez sucesso com músicas depressivas em décadas passadas. A atuação de Sean Penn na pele de Cheyenne é uma das melhores de sua carreira e é o que mantém o filme em pé. O diretor Paolo Sorrentino imprime um tom contemplativo que contrasta-se maravilhosamente bem com o gênero road movie. O problema é que a mistura não para por aí. Abordar a relação de Cheyenne com o pai judeu e aprofundar essa abordagem seria o bastante, mas logo o roteiro faz com que o cantor se veja em uma caçada ao nazista que seu pai procurou a vida inteira para se vingar, o que faz com que o filme perca sua força e parte de seu sentido. Aqui é o meu lugar é um filme com um personagem maravilhoso que busca um lugar dentro de si  - e que acaba encontrando-o de uma forma bastante confusa. Destaque para a sempre bem-vinda Frances McDormand.

domingo, 13 de maio de 2012

Incêndios (Incendies - 2010)


Ela morreu e pediu para ser enterrada de costas para o mundo. Seu testamento é aberto na frente de seus filhos. Para a surpresa de ambos, três cartas são deixadas. Uma, a filha Jeanne deve entreguar ao pai que julgavam morto; outra, o filho Simon deve entregar a um irmão que não sabiam que existiam; e uma terceira os dois devem abrir juntos depois que as duas primeiras cartas forem devidamente entregues a seus destinatários. Somente depois que tudo isso acontecesse, eles poderiam colocar uma lápide no túmulo da mãe Nawal Marwan e escrever seu nome na pedra.

E é a partir desse último pedido de Nawal Marwan que o filme inteiro se desenrola. Desde o começo fica bem claro para o espectador que aquele passado guarda muitos segredos, tão dolorosos para serem revelados quanto foram de serem vividos um dia, e somos questionados se vale à pena buscar verdades tão dolorosas pelo simples fato de serem verdades. A busca de Jeanne e, posteriormente, de Simon, pelo pai e irmão desaparecidos, é apresentada paralelamente à vida de Nawal. Esse recurso do roteiro que poupa o espectador de uma investigação barata e cansativa é um acerto e tanto, pois ao mostrar a vida de Nawal em uma linha cronológica e objetiva, temos a identificação imediata com uma das melhores personagens femininas que eu tive o prazer de ver em um filme. Como efeito catalisador, temos a atuação soberba de Lubna Azabel, que consegue se destacar no meio de um elenco que não deixa a desejar em momento algum.

Se a coluna vertebral de um filme é seu roteiro, Incêndios não tem de reclamar de dores nas costas. Misturando uma história familiar cheia de segredos com o conflito entre cristãos e muçulmanos no Oriente Médio, o longa consegue nos envolver sem qualquer esforço. Em momento algum o conflito religioso é tendencioso, fazendo apenas parte da estrutura orgância da história da família Marwan. O roteiro apuradíssimo e ritmado garante duas horas de duração de arcos narrativos belamente desenvolvidos. Esses arcos, as vértebras que formam a coluna do roteiro, são divididos por uma titulação que poderia ser descartada, mas que não chega a atrapalhar.

É interessante notar como essa busca muda o que os filhos de Nawal pensavam dela. Na medida em que vão descortinando o passado e a vida de Nawal é nos apresentada em tela, tanto eles quanto nós passamos a ter uma visão integral da vida de uma mulher antes incompreendida, mostrando que, para começarmos a compreender outro ser humano, devemos antes dar os mesmos passos que ele deu, ver as mesmas coisas que ele viu, sentir as mesmas coisas que ele sentiu, seja isso feito literalmente, como fazem os filhos da personagem principal, seja metaforicamente, como faz o espectador.

Incêndios possui um desfecho que nos tira o ar. Chocante, audacioso e assustador, o fim do filme jamais soa gratuito, sendo completamente justificado pela construção da trama. É a coroação mais do que merecida de uma história arrebatadora, de uma experiência cinematográfica difícil de ser explicada com palavras e de um dos melhores filmes dos últimos anos. Um filme soberbo que fala sobre tudo que se esconde sob as cinzas de um passado repleto de incêndios que deixaram marcas para toda a vida.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Os Vingadores (The Avengers - 2012)



Poucos filmes criaram tanta expectativa diante do grande público como Os Vingadores, filme da Marvel Studios que estreou quebrando recordes e fazendo barulho. Nele temos Capitão América, Homem de Ferro, Hulk, Thor, Gavião Arqueiro, Viúva Negra e Nick Fury tentando salvar a Terra de uma invasão alienígena comandada por Loki, irmão de Thor que voltou para dominar os humanos. Mas antes dessa batalha decisiva acontecer, temos um primeiro ato longo em que o roteiro se preocupa, acertadamente, em dar o devido espaço que cada personagem merece. O problema é que esse primeiro ato é muito mais longo do que deveria, tendo sequências inteiras perfeitamente descartáveis. Preocuparam-se tanto em focar em seus protagonistas que esqueceram do vilão, que não convence em momento algum como uma ameaça digna de ser temida, o que acaba prejudicando um pouco o terceiro ato, a melhor parte do filme. O roteiro parece ter se preocupado mais em fazer rir do que criar uma trama bem articulada, o que resulta em um filme que parece longo demais. Ainda assim, um prato cheio para os fãs do gênero. Destaque para as ótimas atuações de seus protagonistas.

Paul Newman


domingo, 6 de maio de 2012

Titanic (Titanic - 1997)


Uma das obras mais amadas e odiadas do cinema voltou. Vendido como uma experiência em 3D, Titanic volta às telas de cinema do mundo para naufragar mais uma vez. Sou desses que sempre quis ver Titanic na tela grande do cinema e não perdi tempo. E nem dinheiro. Pois a verdade é que Titanic voltou apenas para provar de uma vez por todas que a mistura de uma história grandiosa, um amor impossível e um apuro técnico impecável promoveram nada menos que uma obra prima - coisa que nem o tempo, sua trilha sonora melosa ou o mal que esse tipo de filme faz à indústria cinematográfica podem ofuscar. De$taque para o 3D ou, se preferir, para a falta dele.

Jogos Vorazes (The Hunger Games - 2012)


Confesso que fui ao cinema assistir a Jogos Vorazes sem nenhuma pretensão além de conferir o burburinho ao redor do filme, mas antes mesmo dos créditos subirem estava satisfeito com o resultado. Jogos Vorazes é uma mistura excitante que questiona a sociedade o tempo inteiro e de um extremo ao outro - de nossos instintos de sobrevivência mais básicos até a forma como vivemos hoje. Esses instintos são a base dos jogos mortais que se desenrolam em tela enquanto nosso comportamento social é questionado através dos jogos políticos e midiáticos que se confudem por trás da violência. E ele faz isso tudo sem ser chato ou ruim. Ainda assim muitas coisas ficam a desejar, como uma explicação mais sólida dos motivos - racionais - dos jogos serem realizados, a tentativa fracassada de um triângulo amoroso pra lá de insosso e as idas e vindas nas mudanças das regras do jogo. Destaque para a direção de Gary Ross e a atuação de peso de Jennifer Lawrence, que juntos fazem de Jogos Vorazes um entreninemento de alta qualidade.


sábado, 14 de abril de 2012

Batalha Real (Batoru rowaiaru - 2000)

 

A primeira cena do filme mostra uma multidão enlouquecida e a imprensa no meio da rua, todos querendo acompanhar o retorno da última vencedora do jogo para casa. Ela olha para a câmera e sorri, ainda suja de sangue. Você não tem dúvidas de que ela está louca. O jogo em questão é o Battle Royale, uma lei aprovada pelo governo que tenta por meio de um jogo extremamente violento restaurar a ordem em um Japão em crise, onde os adultos perderam o controle sobre os jovens. A cada ano, uma sala de aula de qualquer parte do Japão é escolhida e enviada para uma ilha deserta. As regras são bem simples. Todos devem se matar até restar apenas um sobrevivente. Cada um recebe uma mochila com equipamentos de sobrevivência e uma arma, que pode variar de uma tampa de panela a uma escopeta. Caso não haja um vencedor em um intervalo de três dias, todos morrem através da explosão do rastreador preso em seus pescoços.

A premissa, por si só, é o bastante para prender a sua atenção desde o início. Começar e não querer saber o final é quase impossível. Mas se o maior trunfo de Battle Royale é seu argumento, seu maior defeito foi não saber aproveitá-lo. Há cenas muito boas: a da vencedora do último jogo, citada acima; o hilário vídeo de apresentação do jogo aos estudantes escolhidos para o jogo daquele ano; a chamada de todos os estudantes, um por um, para a ilha, gerando tensão na medida certa; e as consequências incríveis do que deveria ser um simples e rápido envenenamento, cena que retrata exatamente o que é Battle Royale

Mas nem um argumento tão bom consegue esconder defeitos tão crassos. Para começar, o motivo pelo qual o governo está fazendo tudo isso é muito mal explicado, eliminando qualquer tipo de discussão política que o filme poderia ter. Essa informação é nos dada de forma absurdamente banal, praticamente em uma apresentação de slides antes do filme começar. E basta os estudantes pisarem na ilha para que os problemas da fita se intensifiquem. A direção parece perdida ao tentar lidar com tantos personagens ao mesmo tempo. Há flashbacks, sonhos e derivados que tentam gerar alguma empatia. Tudo em vão. Não há tempo e nem habilidade suficientes para desenvolver tantos arcos narrativos. Antes mesmo do filme acabar, fica bem claro que havia ali personagens com histórias com grande potencial que não tiveram o espaço que deveriam.

Se há algo que você não pode reclamar é de falta de violência. O filme tem tanto sangue e balas quanto um filme de Quentin Tarantino, embora aqui essa violência pareça ser mais um artificio para maquiar atuações terríveis e um roteiro falho do que um elemento com propósito definido. Até agora estou pensando em quantas vezes uma pessoa precisa ser metralhada para morrer de verdade. Sem falar no clímax do filme, digno de risos. Mas apesar de mostrar-se um filme com uma premissa incrível perdida no meio de uma produção bastante irregular, Battle Royale é o tipo de filme bom de se ver justamente por possuir cenas que o fazem impossível de se levar a sério. Um filme que tinha o potencial de se tornar um clássico do terror com o passar do tempo, mas acabou ficando com gostinho de alternativo.

domingo, 8 de abril de 2012

A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ - 2004)


A Paixão de Cristo traz as últimas doze horas da vida do mesmo. Se por um lado o filme de Mel Gibson possui a coragem de mostrar uma violência crua e explícita incomum quando se trata de filmes biblícos e até mesmo no cinema americano, a mesma ganha contornos de sadismo quando a câmera não nos poupa de ver carrascos arfando de prazer ao torturar Jesus. Os sacedotes fariseus parecem mais um monobloco que só pensam em punir Cristo de qualquer forma, e seu ódio não chega nem perto de ser explicado. Não é para menos que Gibson foi rotulado de antissemita. Para aqueles que não conhecem muito dos personagens bíblicos, fica difícil identificar quem é quem na multidão, muitos servindo apenas como a figuração que chora. Apesar de tudo isso, A Paixão de Cristo é um filme envolvente e seu realismo seria admirável se sua violência não beirasse o caricatural, sendo quase impossível não mexer com sua sensibilidade - ou com seu estômago. Destaque para a última cena, que chega a ser hipócrita.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Os Muppets (The Muppets - 2011)


Tentando resgatar antigos fãs e conquistar novos, Os Muppets investe em um visual leve, colorido e divertido. O começo possui tiradas geniais que me arrancaram boas gargalhadas, com o filme flertanto com a metalinguagem e a própria linguagem cinematográfica utilizada em sua feitura. Diante de um primeiro ato primoroso onde o filme não se leva a sério, Os Muppets tropeça e aos poucos parece perder a graça e se torna enfadonho, tendo apenas flashes do que vimos no começo, culminando em um terceiro ato previsível que a Disney sabe fazer como ninguém. Destaque para a irritante Man or Muppet, canção chata e insossa.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Pecado da Carne (Einayim Petukhoth - 2009)


Homossexualidade em contextos específicos não é nenhuma novidade no cinema, ainda mais quando estamos falando de um contexto religioso. O que me chamou a atenção nesse filme israelense foi a escolha do judaísmo ortodoxo - vertente do judaísmo em que os costumes e rituais devem ser praticados com muito mais vigor. No filme temos um judeu ortodoxo pai de família que se apaixona pelo estudante que contrata para ajudá-lo em seu açougue - metáfora apropriadíssima para o conflito carnal e espiritual que se inicia. O filme não traz nenhuma novidade que nós não tenhamos visto em filmes com temática parecida e senti falta de um pouco mais de ousadia em sua abordagem, mas vale ser visto pela visão da homossexualidade inserida em um contexto tão pontual. Destaque para a atuação contida na medida certa do protagonista, da tradução do título para o português e para a cena final, que entrou para a minha singela listinha de melhores cenas finais de todos os tempos.

sábado, 24 de março de 2012

Beleza Adormecida (Sleeping Beauty - 2011)


Seja pelo título que se refere ao conto de fadas, pelo ícone ali no cantinho superior ou pela beleza de Emily Browning, que mais recentemente acrescentou mais beleza ao já visualmente belo Sucker Punch, de Zack Snyder, não há como resistir. O filme tenta contar a história de Lucy, que acaba de entrar para o mundo da prostituição de luxo. Pena que não são argumentos interessantes aliados a um bom título que fazem bons filmes. Beleza adormecida é um filme oco. Se nas mãos de mestres do cinema como Antonioni o vazio gerou obras de uma profundidade soberba, aqui ele consegue gerar apenas personagens mal desenvolvidos, uma trama pobre e um tédio sem fim. O filme é como uma colagem muito mal feita de fragmentos que insinuam muita coisa, mas não dizem nada. Fizeram tanto esforço para ele parecer profundo, que acabou se tornando uma obra hermética e superficial. Destaque para a última cena, que é de deixar constrangida qualquer pessoa ainda acordada.