quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin – 2011)

Emoções superficiais, manipulação, chantagem emocional, racionalidade pura, frieza e ausência de sentimentos profundos. Esses são apenas alguns sintomas que compõem um quadro de psicopatia. Dirigido por Lynne Ramsay e com uma das melhores atuações da carreira de Tilda Swinton, Precisamos falar sobre o Kevin visita o lar de um psicopata do momento de seu nascimento ao desfecho sangrento de seus atos, e nos mostra a relação de uma mãe e seu filho assassino como nenhum filme mostrou antes.

O longa começa com uma edição um tanto psicodélica mostrando o estado psicológico de Eva em diferentes momentos do passado e do presente, mas não demora muito para que as diferentes linhas narrativas entrem em sintonia e o roteiro cresça na tela. Intercalar a narrativa das vidas de Eva e Kevin, antes e depois do massacre, apenas acrescenta qualidade ao ritmo da trama, além de proporcionar ao espectador a construção de um quadro multidimensional sobre o que aconteceu e está acontencendo, aprofundando os perfis dos personagens e acentuando o horror da história que está sendo contada. Pois apesar de ser um filme de grande densidade dramática, Precisamos falar sobre o Kevin não deixa de ser um filme de horror. Não há palavra melhor que defina o que se passa durante toda a projeção. 

Precisamos falar sobre o Kevin poderia muito bem ser um filme acerca de acontecimentos semelhantes aos que aconteceram no massacre de Columbine em 1999. Mas seu trunfo não está em focar o massacre causado por Kevin e anunciado desde o início, mas sim em lembrar o que geralmente é esquecido: assassinos também têm mães. E é para essa conturbada relação entre mãe e filho que a diretora Lynne Ramsay volta sua câmera. Os atritos começam logo quando Kevin nasce e não para de chorar. A cena em que Eva fica perto de uma britadeira na tentativa de abafar o choro da criança é de um impacto visual imediato. Kevin não demora para revelar sintomas de sua psicopatia. A frieza, a aparente ausência de sentimentos e a manipulação emocional sem culpa ou remorso estão presentes nele desde seu nascimento. O longa deixa bem claro que elas são inerentes ao garoto. Tudo é muito tenso porque somente Eva percebe quem o filho realmente é, e no momento em que ela percebe que esse ser saiu de suas entranhas, seu papel enquanto mãe e ser humano, diante do filho e do monstro, são questionados o tempo inteiro pelas circunstâncias que vão surgindo.

Com Kevin preso após o massacre, a sociedade precisa correr atrás de alguém com suas tochas e forcados para despejar seu ódio, e ninguém parece ser melhor que aquela responsável pelo nascimento e criação do garoto. Assim temos Eva e um perfil psicológico devastado pela culpa e pela tristeza, interpretada por Tilda Swinton. A única coisa a se dizer sobre a atuação de Tilda como Eva Khatchadourian é que sua performance é inquestionável. Os três atores que dão vida a Kevin se saem muito bem, com destaque para a atuação de Jasper Newell, que vive o garoto em sua segunda fase, e para a escolha de Ezra Miller em sua fase final, simplesmente por terem encontrado um ator com o rosto tão exótico quanto o de Tilda Swinton.

Mas apesar do longa possuir carga dramática o suficiente para suas quase duas horas de duração, acredito que ainda há algumas entrelinhas no argumento de Precisamos falar sobre o Kevin que não podem deixar de ser lidas. Desde o começo fica bem claro que, apesar de Eva ser o principal alvo de Kevin durante todo o longa, ela é poupada de seu arco e flecha durante o massacre, e apesar de todas as atrocidades que ele tenha cometido, ela continua a visitá-lo na prisão. Mãe e filho parecem unidos por um vínculo que somente uma mãe e um filho podem compreender. O amor mais primitivo do mundo deturpado a tal ponto que eu não saberia dizer se o que os une ainda pode ser chamado de amor.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Cidade de Deus (2002)

O inferno nunca foi tão belo. 

 

Eu li em algum lugar um conto envolvendo um guerreiro com sua espada, um sacerdote e sua religião, o rei e sua autoridade, e o comerciante mais rico da cidade. De joelho perante os três e dividido entre honra, fé e ganância, o guerreiro e sua espada teriam que escolher qual dos três homens seguir. Quando eu assisti a Cidade de Deus, essa pequena história foi a primeira coisa que veio a minha cabeça. No momento eu não percebi o motivo, mas ela continuava a martelar na minha cabeça. Deixei-a estar e dirigi meus pensamentos à segunda coisa que habitava minha mente: eu havia acabado de assistir a um filme fenomenal.

Cidade de Deus possui elementos clássicos envoltos por uma estética moderna. Os atores próximos àquela realidade, as locações locais e a temática social foram os tijolos que costruíram o neorrealismo italiano, que mostrou aos franceses e ao resto do mundo novas formas de se fazer cinema. Todos esses elementos são embalados por uma estética e plasticidade modernas, com elementos do documental aliados a uma fotografia bem pensada – perceba a mudança da mesma ao longo do filme, indo de alaranjada e nostálgica no começo para sombria durante a guerra do fim – , um roteiro com personagens extremamente verossímeis e uma montagem complexa e empolgante.


A forma como a história é contada é que pontua o ritmo que não nos permite sequer coçar os olhos. Diversas histórias da favela e de seus personagens são contadas, costuradas com perícia e maestria, desenvolvendo e dando profundidade ao principal personagem: a própria favela. Os ganchos espalhados pelo roteiro só ajudam a dar ainda mais fôlego a esse ritmo, como quando Buscapé apresenta fulano e diz que ainda não é hora de sua história ser contada, ou quando fala que sicrano iria precisar utilizar suas técnicas de artes marciais, embora ainda não soubesse disso.

Cidade de Deus mostra o retrato do narcotráfico que cresceu e virou homem na dita favela entre as décadas de 60 e 80 na cidade do Rio de Janeiro. Por trazer todos os elementos do neorrealismo italiano citados anteriormente, era de se esperar que o resultado fosse um filme cru. Porque não podemos esquecer que Cidade de Deus é um filme violento. E ele traz uma violência que até então nunca fora mostrada no cinema com tanta propriedade. Nele, temos crianças segurando armas, que matam e que morrem, que controlam o tráfico e são controladas por ele. O sistema que lhes concede os meios é o mesmo que lhes tiram a vida. Ao invés de gângsteres, crianças. Ao invés de perseguições de carros  pelas ruas bem asfaltadas de Nova York, garotos com armas nas mãos correndo pelas ruas labirínticas da favela do Rio de Janeiro. Sobreviver signinfica poder. E essa é um das reflexões mais interessantes que Cidade de Deus nos desperta. Não é para menos que Cidade é aclamado como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, tendo recebido quatro indicações ao Oscar e dezenas de prêmios mundo afora.


Nele temos a violência em seu estado mais puro e latente. E entretanto, graças à estética mencionada, Cidade de Deus está longe de ser um filme meramente documental com o único intuito de chocar e denuciar. Se no passado cineastas como Glauber Rocha defenderam a estética da fome – filmes com temáticas sobre a condição humana do brasileiro deveriam ser apresentados em seu estado mais cru e realista, para mostrar de forma efetiva ao público brasileiro e mundial como a banda realmente toca por aqui – , Cidade de Deus bate de frente com essa proposta e abraça o oposto da estética da fome defendida por Glauber. Ele é filho da cosmética da fome, onde filmes com essa temática são retratados de forma a promover nada menos que um espetáculo visual alheio a críticas ou reflexões sociais que porventura trouxesse. O resultado é o verdadeiro inferno filmado de forma soberba, irresístivel e fascinante.

A forma como o diretor abordou essa temática não chega a ser uma surpresa. Fernando Meirelles não é um morador denunciando as condições em que vive. É um cineasta disposto a fazer um épico de sangue e beleza. E aqui o diretor não é diferente do personagem de Buscapé. Apesar do garoto estar inserido naquele mundo, perceba que nada o atinge diretamente, pois ele é a ponte que liga espectador e diretor àquela realidade. Meirelles apropria-se do olhar de Buscapé para que, paralelamente, nós possamos nos apropriar do olhar do diretor e Cidade de Deus ganhe vida.

E, depois de algum tempo, eu entendi por qual motivo a história do guerreiro, do rei, do sacerdote e do comerciante veio a minha mente quando acabei de ver o filme. Ambas as histórias falam de poder. Se a história do guerreiro houvesse acontecido dentro de Cidade de Deus, seu final seria cheio de significado. Estendido sobre os corpos do rei, do sacerdote e do comerciante depois de matá-los com sua espada, o guerreiro se autonomearia Deus e dono de sua própria honra, fé e riqueza e, de acordo com sua vontade, faria da Cidade um verdadeiro inferno ou o mais pacífico dos paraísos. E nem é preciso pensar muito para saber qual seria sua vontade. A cidade de Deus é uma cidade feita de homens. O paraíso nunca foi uma opção.