quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo – 2011)


Quando Martin Scorsese entrou na New York University em 1960, uma das primeiras coisas que aprendeu foi que deveria fazer filmes sobre sua própria vida, sobre aquilo que conhecia. Apesar de vir de uma família cujo pai não tinha dinheiro para comprar sequer uma câmera de 8mm, ele possuía algo que a maioria dos outros alunos não possuía: ele tinha algo a dizer. Crescido em um ambiente violento, o pequeno, doentio e alérgico Martin observava toda aquela violência que um dia explodiria em seus filmes. Hoje, depois de mais 50 anos de carreira e filmes considerados para adultos, Scorsese volta a ser aquele garotinho que observava e sonhava para fazer um filme tocante sobre sua própria arte.

Scorsese nos leva por uma viagem pelo início da história do cinema através dos olhos azuis de Hugo Cabret. Estamos na Paris dos anos 30. Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um órfão que vive escondido nas paredes de uma estação de trem e que poderia muito bem ter saído das páginas de Dickens. Responsável por ajustar os relógios da estação todos os dias religiosamente, ele guarda consigo um robô quebrado, deixado por seu pai (Jude Law), e empenha-se em furtar pequenas peças de um velho um tanto rabugento (Ben Kingsley) para consertar o robô. Um dia, ao fugir do inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), ele conhece Isabelle (Chloe Moretz), uma jovem com quem faz amizade. Logo Hugo descobre que ela tem uma chave com o fecho em forma de coração, exatamente do mesmo tamanho da fechadura existente no robô, que guarda segredos que prometem mudar sua vida.

Asa Butterfield foi a escolha perfeita para viver Hugo Cabret. Cinema é luz em movimento e a Paris de Scorsese não poderia ser mais romantizada e luminosa, com seus romances de estação e moleques de rua. Logo, ninguém melhor que Butterfield com seus enormes olhos azuis constratando com sua pele branquíssima para absorver e refletir tanta luz, mesmos olhos que observam tudo como o espectador que assiste a um filme, o cineasta que o filma ou o projetista que o exibe. E essa fotografia de Paris é feita por Robert Richardson, que considero um dos melhores diretores de fotografia em atuação, e que já trabalhou com Scorsese antes, nos brindando com a Cidade Luz cheia de brilho e magia em tons de dourado, como se tudo fosse um sonho, como se tudo fosse… um filme. A já veterana Chloe Moretz confirma mais uma vez seu talento, mas acredito que dessa vez quem tenha roubado a cena durante toda a película foi Butterfield com sua expressividade e desenvoltura. Sacha Baron Cohen mostra-se um tanto contido, porém bastante flexível nas cenas que exigem maior carga dramática. Mas a melhor surpresa que tive foi Ben Kingsley. Depois de algumas escolhas terríveis em sua carreira, Kingsley parece estar reencontrando o rumo certo, assim como seu personagem encontra o seu no filme. Ele atua maravilhosamente durante toda a projeção e mostra porque foi escolhido para viver o personagem de maior destaque da trama.

Hugo também é o primeiro filme em que Scorsese utiliza o 3D. Scorsese mostra que esse recurso nas mãos certas transforma-se em uma ferramenta soberba, ainda que ele tenha sido quase esquecido do meio para o fim. O que vemos em Hugo é uma profundidade exibida em ângulos minuciosamente pensados, seja ela retratada através de elementos que vem ao nosso encontro – não simplesmente jogados nas nossas caras -, o vazio vertiginoso no meio das escadas em espirais visto do alto, as pernas de Hugo balançando no ponteiro do relógio vistas de baixo, pêndulos balançando na diagonal ou apenas a textura da neve ou da fumaça. É como se a própria estação de trem fosse um personagem a parte cujos mecanismos ganham vida através do recurso da terceira dimensão.

Hugo Cabret vive em um mundo de parafusos e engrenagens onde tudo parece ser mecanizado, dos relógios que dependem dele para funcionar, passando pelo trem que todos os dias chega e parte da estação em horários definidos, ao movimento mecânico da humanidade em si representado pelas ruas da França vistas de cima ou dos passageiros que chegam e partem da estação constantemente como se fossem um só. Mas Hugo é diferente. Ao contrário dos demais que fazem parte de todo esse mecanismo, ele é o único que consegue perceber vida no meio de tudo aquilo, como o amor surgindo entre Monsieur Frick e Madame Emile (vividos por Richard Griffiths e Frances de la Tour, respectivamente, ambos da saga Harry Potter) no meio de todo o movimento frenético e constante da estação.Talvez por ser apenas um agente observador, Hugo seja um personagem praticamente passivo, sendo mais levado pelos acontecimentos do que interferindo neles.

Depois de uma longa carreira fazendo filmes acerca do que sempre conheceu, Scorsese faz um sobre a arte que escolheu para amar e aprendeu a realizar, e o fez através de um garotinho que vive em uma estação de trem em Paris, tão sonhador e observador como o garoto solitário e asmático que o próprio cineasta foi um dia. Hugo, portanto, só poderia ser realizado por um cineasta que possuísse experiência cinematográfica e de vida suficientes para falar de sua arte. A vida se encarregou de encaixar Hugo Cabret em Martin Scorsese, pois ele sempre precisou encaixar a peça certa no lugar certo para a feitura de seus filmes. Foi preciso apenas tempo para que o cinema encaixasse Martin Scorsese em Hugo Cabret.

Praticamente uma enciclopédia ambulante sobre cinema, Scorsese também é um historiador de sua arte, e Hugo é importante porque nos traz o irmãos Lumière e seu A chegada do trem na estação, George Méliès e seu Viagem à Lua, porque resgata o cinema e sua importância histórica, lembrando o espectador que aquela arte possui um passado que precisa ser lembrado e valorizado.

Assim como o tempo passa nos relógios da estação em que Hugo mora, o tempo passa para o cinema, eeste se forma, se reforma e se transforma, cabendo a cineasta e espectador voltarem a sua essência para nunca esquecerem o que ambos estão fazendo ali. Ainda que não consiga produzir a catarse desejada, com Hugo Scorsese homenageia sua obra, sua arte e seu papel como cineasta, e faz isso através dos olhos espantados do garotinho que ele e todos que gostam de cinema terão ao virem um filme: como se fosse pela primeira vez. Como alguém diz em certa altura da fita, assistir a um filme é como sonhar de dia. O que eu digo agora é que todo cineasta filma sonhos. Mas apenas grandes cineastas como Martin Scorsese nos convidam para sonhar com ele.