sábado, 14 de abril de 2012

Batalha Real (Batoru rowaiaru - 2000)

 

A primeira cena do filme mostra uma multidão enlouquecida e a imprensa no meio da rua, todos querendo acompanhar o retorno da última vencedora do jogo para casa. Ela olha para a câmera e sorri, ainda suja de sangue. Você não tem dúvidas de que ela está louca. O jogo em questão é o Battle Royale, uma lei aprovada pelo governo que tenta por meio de um jogo extremamente violento restaurar a ordem em um Japão em crise, onde os adultos perderam o controle sobre os jovens. A cada ano, uma sala de aula de qualquer parte do Japão é escolhida e enviada para uma ilha deserta. As regras são bem simples. Todos devem se matar até restar apenas um sobrevivente. Cada um recebe uma mochila com equipamentos de sobrevivência e uma arma, que pode variar de uma tampa de panela a uma escopeta. Caso não haja um vencedor em um intervalo de três dias, todos morrem através da explosão do rastreador preso em seus pescoços.

A premissa, por si só, é o bastante para prender a sua atenção desde o início. Começar e não querer saber o final é quase impossível. Mas se o maior trunfo de Battle Royale é seu argumento, seu maior defeito foi não saber aproveitá-lo. Há cenas muito boas: a da vencedora do último jogo, citada acima; o hilário vídeo de apresentação do jogo aos estudantes escolhidos para o jogo daquele ano; a chamada de todos os estudantes, um por um, para a ilha, gerando tensão na medida certa; e as consequências incríveis do que deveria ser um simples e rápido envenenamento, cena que retrata exatamente o que é Battle Royale

Mas nem um argumento tão bom consegue esconder defeitos tão crassos. Para começar, o motivo pelo qual o governo está fazendo tudo isso é muito mal explicado, eliminando qualquer tipo de discussão política que o filme poderia ter. Essa informação é nos dada de forma absurdamente banal, praticamente em uma apresentação de slides antes do filme começar. E basta os estudantes pisarem na ilha para que os problemas da fita se intensifiquem. A direção parece perdida ao tentar lidar com tantos personagens ao mesmo tempo. Há flashbacks, sonhos e derivados que tentam gerar alguma empatia. Tudo em vão. Não há tempo e nem habilidade suficientes para desenvolver tantos arcos narrativos. Antes mesmo do filme acabar, fica bem claro que havia ali personagens com histórias com grande potencial que não tiveram o espaço que deveriam.

Se há algo que você não pode reclamar é de falta de violência. O filme tem tanto sangue e balas quanto um filme de Quentin Tarantino, embora aqui essa violência pareça ser mais um artificio para maquiar atuações terríveis e um roteiro falho do que um elemento com propósito definido. Até agora estou pensando em quantas vezes uma pessoa precisa ser metralhada para morrer de verdade. Sem falar no clímax do filme, digno de risos. Mas apesar de mostrar-se um filme com uma premissa incrível perdida no meio de uma produção bastante irregular, Battle Royale é o tipo de filme bom de se ver justamente por possuir cenas que o fazem impossível de se levar a sério. Um filme que tinha o potencial de se tornar um clássico do terror com o passar do tempo, mas acabou ficando com gostinho de alternativo.

domingo, 8 de abril de 2012

A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ - 2004)


A Paixão de Cristo traz as últimas doze horas da vida do mesmo. Se por um lado o filme de Mel Gibson possui a coragem de mostrar uma violência crua e explícita incomum quando se trata de filmes biblícos e até mesmo no cinema americano, a mesma ganha contornos de sadismo quando a câmera não nos poupa de ver carrascos arfando de prazer ao torturar Jesus. Os sacedotes fariseus parecem mais um monobloco que só pensam em punir Cristo de qualquer forma, e seu ódio não chega nem perto de ser explicado. Não é para menos que Gibson foi rotulado de antissemita. Para aqueles que não conhecem muito dos personagens bíblicos, fica difícil identificar quem é quem na multidão, muitos servindo apenas como a figuração que chora. Apesar de tudo isso, A Paixão de Cristo é um filme envolvente e seu realismo seria admirável se sua violência não beirasse o caricatural, sendo quase impossível não mexer com sua sensibilidade - ou com seu estômago. Destaque para a última cena, que chega a ser hipócrita.