terça-feira, 26 de junho de 2012

O Mágico de Oz (The Wizard of Oz - 1939)


Todos conhecem a história da garota mais famosa do Kansas criada por Lyman Frank Baum que ganhou as telas do cinema em 1939 pelas mãos de Victor Fleming. Seu nome é Dorothy que, levada por um tornado junto com seu cachorrinho Totó, acaba parando na maravilhosa terra de Oz. O filme inicia-se em tons de sépia para retratar o mundo de Dorothy e, quando ela finalmente abre a porta de sua casa e entramos em Oz, a tela explode em cores, em uma das utilizações mais incríveis do Technicolor já feitas no cinema. Tudo é apenas realçado pela direção de arte impecável recorrente na filmografia de Fleming. A magia de O Mágico de Oz não está apenas em ser um dos melhores e mais cultuados filmes americanos de todos os tempos, mas por ser um filme infantil absolutamente sincero que conseguiu, em plena Guerra, fazer com que as pessoas acreditassem que ainda era possível sonhar. Destaque para a canção Over the rainbow, imortalizada na voz de Judy Garland, que deixou seu rosto carimbado na história do cinema ao interpretar com maestria uma garotinha de 12 anos quando, na verdade, tinha 16.

domingo, 24 de junho de 2012

Sombras da Noite (Dark Shadows - 2012)



No século XVIII, o casal Collins parte de Liverpool, Inglaterra, para começar uma nova vida na América onde, ao longo dos anos, constroem um pequeno império. Tudo muda quando seu filho, Barnabas - interpretado por Johnny Depp -, quebra o coração de Angelique - vivida por Eva Green -, que sempre o amou em segredo. Mas Angelique era uma bruxa e, como vingança por ter sido ignorada e trocada por outra, condena Barnabas a ser um vampiro e enterra-o vivo para que ele sofra para sempre. É nesse ponto que o filme pula para o ano de 1972, dois séculos depois dos acontecimentos mostrados no prólogo, onde Barnabas é acidentalmente libertado. Esse é o pontapé do novo filme de Tim Burton estrelado por Johnny Depp. 

Depois que Barnabas é libertado, o filme ganha instantaneamente dois caminhos a serem percorridos ao longo de sua projeção: o lado mais sombrio, em que o vampiro iniciaria sua vingança contra a bruxa que o aprisionou, e o divertido, em que ele se depararia com uma realidade completamente diferente da que vivia há dois séculos. Entretanto, o roteiro não consegue balancear esses dois caminhos, levando o espectador à frustração ao não conseguir decidir qual deles percorrer.

As primeiras cenas após a libertação de Barnabas, sendo elas a tirada envolvendo o símbolo do McDonald's e a total inabilidade do vampiro diante de uma simples estrada, mostram o enorme potencial cômico do longa e servem para começar o segundo caminho que citei anteriormente. Essa disparidade é apenas acentuada quando Barnabas volta para sua casa e encontra Elizabeth Collins (Michelle Pfeiffer), a atual matriarca dos Collins, Roger Collins (Jonny Lee Miller), seu irmão, a rebelde Carolyn (Chloë Moretz) e o jovem David (Gulliver McGrath), além do jardineiro vivido por Jackie Earle Haley, a psiquiatra interpretada por Helena Bonham Carter e a babá Josette (Bella Heathcote).

Mas apesar de possuir um caminho cômico promissor, o filme de Burton peca pela inconsistência de seu roteiro. Se o caminho principal a ser percorrido pelo mesmo era o acerto de contas entre o vampiro e a bruxa, esse se revela uma fonte de problemas que tenta se salvar no meio das tiradas cada vez mais escassas ditas pelo personagem de Johnny Depp, e os maiores deles estão concentrados nos arcos narrativos de seus personagens secundários. 

Os problemas começam antes mesmo da libertação de Collins, quando a babá Josette chega na mansão para cuidar de David. Em uma das primeiras cenas a personagem de Chloë Moretz deixa a entender que o menino é estranho e problemático, mas não demora muito para que essas palavras se percam no ar e isso sequer seja comprovado durante o longa, fazendo com que o personagem do garoto perca sua importância. Para cuidar do garoto temos a psiquiatra vivida por Bonham Carter que, sem trocar uma palavra com ele durante pouco mais de uma hora de projeção, está ali apenas para justificar a presença sempre certa da mulher do diretor em seus filmes e protagonizar um arco narrativo sem nenhuma importância ao lado de Depp. É uma pena ver uma atriz tão boa sendo totalmente desperdiçada, pois sua presença não se justifica em tela, sendo sua personagem totalmente descartável, caso similar ao do pai de David. Bella Heathcote, que interpreta dois personagens, mostra-se totalmente sem graça.

Não é coincidência o roteiro tentar disfarçar sua inabilidade em lidar com tantos personagens livrando-se deles de alguma forma. Ele tenta homenagear todos os personagens oriundos da série na qual o filme é baseado, mas o que consegue é apenas ir de um arco narrativo a outro sem desenvolver nenhum, resultando em personagens vazios e sem empatia. Para completar, perdi as contas das transições de cena que eram feitas com imagens das ondas do mar batendo nas pedras, não me surpreendi com a cena final totalmente previsível e descartável e ainda não consegui me decidir se me constrangi mais em ver um fantasma disfarçado de fantasma (?) com um lençol (??) ou com a insinuação de sexo oral protagonizada por Helena Bonham Carter.

Se por um lado os melhores personagens secundários em tela são a maravilhosa Pfeiffer e a já talentosa Moretz, os principais são absolutamente cativantes. Enquanto Depp mostra-se contido e quase sisudo na composição de seu vampiro, quase nunca sorrindo e quase sempre dizendo as melhores linhas do roteiro, Eva Green mostra uma bruxa à altura, diversificando seu tom de voz a medida que seu personagem se desenrola e conseguindo transmitir a sexualidade e o perigo que ele exige. Uma das melhores cenas do longa é protagonizada pelos dois. Além disso, como é de se esperar de um filme de Tim Burton, a direção de arte é impecável, desde a caracterização de seu personagem principal que, diga-se de passagem, sempre alavanca a interpretação de Depp, aos detalhes que compõem a mansão dos Collins, que parece resistir às inovações do novo século da mesma forma que seu dono. 

No desfecho do acerto de contas entre Barnabas e Angelique, o roteiro pesa a mão mais uma vez. Dark Shadows foi baseado numa série televisiva exibida na TV americana até a década de 70 recheada de vampiros, bruxas, vampiros, fantasmas e derivados. Um dos problemas do filme de Burton está justamente na falta dessa diversidade. Durante o filme inteiro nos questionamos a existência plural desses seres - afinal, o que nos é mostrado são apenas uma bruxa, um vampiro e um fantasma - e no final, como se quisesse corrigir essa falha, indescritivelmente nos são revelados personagens com o único objetivo de tornar o desfecho o mais pirotécnico possível. 

Sombras da Noite mostra-se um projeto idealizado com bastante carinho por Burton e Depp e realizado de forma bastante irregular. Não conseguindo se decidir entre o gótico e a comédia, o filme acaba e a impressão que fica é que Tim Burton se perdeu nas próprias sombras que decidiu gravar. Para o espectador, fica um sorriso sem graça e a dúvida de que se fizeram bem em tirar Dark Shadows do túmulo onde até então descansava em paz.

sábado, 16 de junho de 2012

O Escafandro e a Borboleta (Le scaphandre et le papillon - 2007)



Imagine você sofrer um acidente cerebral de uma hora para a outra e acordar sem conseguir mover quase nada. Sua consciência ainda está intacta. Você consegue pensar, ouvir e sentir, mas não consegue sequer abrir a boca para pedir um copo d'água, pois a única coisa que você consegue mover é seu olho esquerdo. Isso foi o que aconteceu com Jean-Dominique Bauby, editor de uma das revistas de moda mais conceituadas do mundo.

O primeiro desafio para transpor uma história tão forte para as telas do cinema foi a do diretor Julian Schnabel. Por melhor que fosse o roteiro, o filme não funcionaria se a história não envolvesse o espectador, conceito básico do cinema que tropeça no fato do protagonista não se mover durante o filme inteiro. Se a direção optasse apenas por mostrar o drama de Bauby objetivamente, o roteiro perderia sua força dramática e narrativa porque, primeiro, Bauby seria mostrado apenas como um deficiente e o espectador seria apenas um observador passivo de sua condição e, segundo, provavelmente o roteiro teria que compensar a atípica falta de movimento de seu protagonista focando a câmera nos personagens secundários, quando o ponto sempre foi e não poderia deixar de ser Jean-Dominique.


O que Schnabel fez para suprir todos esses problemas foi de uma simplicidade quase enganosa, de uma ousadia arriscada e de uma perspicácia digna dos prêmios que recebeu. Como o protagonista do filme mexia apenas um olho, Schnabel levou ao pé da letra a tese de que a câmera pode ser o olho pelo qual o cineasta vê o mundo e a colocou do ponto de vista do olho de Bauby. Através da câmera subjetiva - com mudanças de ângulos, focos e lentes, construindo a visão do personagem tanto literal quanto metaforicamente - o diretor nos concede a possibilidade de entrar no casulo em que vive o protagonista e termos a ideia exata de tudo que ele sente. Esse artifício quase metalinguístico somado aos pensamentos de Bauby em off é o que nos permite ser Jean-Dominique Bauby durante pouco mais de cem minutos. 

Quando Jean-Dominique acorda no hospital depois de seu AVC, o que logo chama a atenção do espectador, além da inesperada e já citada subjetividade da câmera, são as cores fortes e radiantes que compõem os fotogramas que se seguem, com cenas que parecem estar cobertas de luz. Isso prevalece até o fim do filme, em todas as tomadas gravadas do ponto de vista de Bauby, como se a soberba fotografia quisesse gritar ao protagonista que a própria vida é soberba. A prova disso é que, quando o que nos é mostrado são flashbacks ou cenas filmadas com câmera objetiva, com o distanciamento que uma narração em terceira pessoa exige, a fotografia parece muito menos exuberante. Todos esses detalhes técnicos aliados a uma montagem sensível e inteligente apenas potencializam a narrativa.


Para ajudar Jean-Dominique a se comunicar com o mundo, sua fonoaudióloga desenvolve um sistema tão simples quanto trabalhoso, em que ela dita as letras do alfabeto na ordem em que elas mais são utilizadas na língua francesa, cabendo a Bauby piscar na letra que deseja para formar palavras e frases para se comunicar com o mundo ao seu redor. Esse artifício não foi um desafio apenas para o protagonista. O roteiro teve que lidar com as dificuldades de um sistema relativamente lento em um filme em que o ritmo era crucial para que a narrativa se desenrolasse de forma eficiente. Para resolver esse problema, a montagem sensível e inteligente que citei anteriormente foi crucial, mostrando a evolução do processo no ritmo certo. Além disso, o roteiro por si só encontrou subterfúgios para escapar das armadilhas impostas por ele mesmo. Nas primeiras cenas em que o sistema é utilizado e a fonoaudióloga dita as letras lentamente, os pensamentos em off do protagonista suprem o ritmo veloz que a cena necessitava para não se tornar maçante. Em outra, em que Bauby dita que quer morrer, o ritmo diminui, o pensamento em off sai de cena e a câmera foca na médica que desvenda a mensagem, tudo para que aquela simples frase ganhe um peso muito maior do que se fosse  apenas pensada por Bauby e entregue ao espectador de forma tão simplista.


As atuações impedem que o filme se torne um melodrama barato. Como se não bastasse a atuação sincera de Mathieu Amalric na pele de Jean-Dominique, temos um time de coadjuvantes de peso. Emmanuelle Seigner, atriz que vive a ex-mulher de Bauby, possui um dos melhores momentos do filme junto com Amalric, quando tem que atender o telefonema daquela que aparentemente causou sua separação e se vê obrigada a se comunicar com a mesma. Por outro lado, temos Marie-Josée Croze encarnado a dedicada fonoaudióloga de Bauby e o consagrado Max Von Sydow vivendo o pai do mesmo, ambos também protagonizado uma das melhores cenas de um filme recheado de cenas da mesma qualidade. Acertadamente o roteiro não se preocupa em aprofundar as relações de Jean-Dominique mostradas através dos flashblacks. Afinal de contas,  a relação que mais interessa é a de Dominique com o mundo em si.

E essa relação atinge seu ápice quando o editor escreve o livro que dá nome ao filme apenas piscando o seu olho esquerdo. Sua arte é aquela que o liberta dos limites de seu próprio corpo. É durante a feitura desse livro que o homem finalmente se livra de seu pesado escafandro e lentamente a borboleta rompe seu casulo, resultando em uma obra de arte em que nós podemos pegar emprestado o escafandro de Bauby e adentrar em seu casulo para nos vermos de uma forma que nunca nos vimos. De uma forma luminosa e assustadora que nos faz refletir sobre a grandeza imensurável de estarmos vivos.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Dirigindo no escuro (Hollywood Ending - 2002)


A metalinguagem sempre foi um artifício utilizado por diversos diretores para criticar, enaltecer ou simplesmente retratar a feitura de um filme. Nesse filme de Woddy Allen, o cineasta conta a história de um diretor interpretado por ele mesmo que tenta voltar ao hype hollywoodiano, mas que no primeiro dia das gravações adquire uma cegueira psicossomática. Apesar da cegueira do personagem interpretado por Allen - que pode ser encarada tanto literal quanto metaforicamente - ser uma clara alfinetada à qualidade dos filmes comerciais produzidos pela indústria americana nos últimos anos, esse propósito se perde na tela em detrimento das desventuras do cineasta cego e suas relações amorosas, que apesar de possuirem sequências engraçadas, acabam ficando repetitivas e enfadonhas. Um argumento digno de Allen um pouco perdido no meio de piadas não tão dignas de Allen assim. Destaque para um final brilhante que casa perfeitamente com o título e a proposta do filme, mas que parece chegar tarde demais.