quarta-feira, 25 de julho de 2012

Valente (Brave - 2012)


Se todo filme da Pixar gera expectativa, desde que o estúdio anunciou que seu próximo longa seria protagonizado por uma personagem feminina, a expectativa cresceu um pouco mais. Primeiro, porque não é muito comum animações protagonizadas por mulheres que aparecem em seus primeiros frames oficiais segurando arco e flecha; segundo, porque seria curioso ver como a Pixar lidaria com um personagem tão estereotipado como o da princesa; e terceiro, porque ela tinha cabelos ruivos que são um espetáculo a parte.

Merida é uma princesa que não quer ser princesa. Depois de discutir com a mãe e parar no meio da floresta, acaba seguindo luzes mágicas que a levam ao encontro de uma atrapalhada bruxa que parece ser a solução para todos os seus problemas. Merida quer um feitiço para que ela possa seguir seu próprio destino, e é no momento em que esse feitiço é consumado que Brave leva o espectador por um caminho mágico, inesperado e tão selvagem quanto a própria protagonista.


Comparar Merida com outras princesas de filmes de animação chega a ser um insulto. Isso porque esse estereótipo nunca foi desconstruído com tanto vigor anteriormente. Os elementos tão presentes nos filmes de animação protagonizados por princesas foram massacrados um por um. Seus volumosos, rebeldes e cacheados cabelos ruivos vão de encontro com o loiro/preto/liso/ondulado que até então eram absolutos; não há um sidesick que a siga, pelo menos não no conceito clássico do termo; não há príncipe - e, o mais importante, ela não se importa em ter um. E onde o roteiro se mostra mais maduro é no fato de não haver vilões, fazendo com que Merida tome por antagonistas as situações surgidas de seus próprios dilemas, coisa que cineastas como Hayao Miyazaki fazem de forma brilhante há anos e que ainda é bastante incomum nas animações ocidentais.

Talvez o problema mais latente em Brave seja alguns de seus personagens secundários, mais especificamente os chefes e filhos dos clãs que procuram uma aliança através do casamento da princesa Merida. Eles são tão caricatos que não há como o espectador vê-los como ameaça em momento algum. Além disso, não são engraçados, espaço cômico que poderia ter sido ainda mais explorado pelos três irmãos de Merida, que roubam todas as cenas (e doces) em que aparecem. 

Mas esses pequenos defeitos não conseguem minimizar a qualidade e maturidade do longa. Perceba que o fato da protagonista ser feminina é apenas a primeira camada em um filme enganosamente prosaico. Afinal, ela é uma protagonista feminina, mas em momento algum age como a mulher que os outros personagens ou o espectador mais conservador espera. Ela possui características e habilidades físicas geralmente atribuídas a personagens masculinos, mas isso é posto em tela de forma sensível, nunca caricatural. Outro ponto muito interessante é que a personagem mais importante do longa depois de Merida também é feminina. Um filme com duas personagens protagonistas femininas cujo assunto principal entre as mesmas não gira em torno de homens não é algo fácil de ser encontrado, dificuldade essa a que me refiro a nível de toda história do cinema mundial.


Brave aborda o conflito entre mãe e filha, conceito amplamente utilizado em comédias americanas das décadas passadas, principalmente nos enlatados produzidos para o público adolescente. A principal diferença é que pela primeira vez essa temática é abordada em um filme de animação feito sob encomenda para o público infantil. A coragem de Brave está justamente em inserir uma nova leva de valores em um público tão carente de estímulos não-distorcidos, ao mesmo tempo que incita os pais a refletirem em como agiriam se seus filhos não se tornassem aquilo que eles sempre quiseram – algo que certamente não acontece apenas em castelos da Escócia.

O visual do filme é impecável. Ao mesmo tempo em que senti falta de uma gama maior de cenários, gostei do fato do filme ter se concentrado no castelo e suas proximidades, evidenciando o fato de que, para encontrarmos nossos destinos, não precisamos ir muito longe. O terceiro ato do filme é comovente, surpreendendo o espectador com a explicação de detalhes antes imperceptíveis, como a essência das luzes mágicas que guiaram Merida durante todo o filme.


Assim como Jogos Vorazes conseguiu mostrar a um público adolescente quase anestesiado que mulheres não são simplórias quanto nove em cada dez filmes produzidos para eles fazem parecer, Brave é importante porque faz coisa parecida entre o público infantil, revelando territórios até então ignorados e que timidamente começam a ser explorados pela indústria. Com um roteiro simples, porém realizado com bastante maturidade, Brave não é o tipo de filme que foi feito para fazer tanto sucesso quanto seus companheiros de estúdio protagonizados por homens. Mas é o tipo de filme que precisava ser feito.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Para Roma, com amor (To Rome with love - 2012)



Continuando seu tour cinematográfico ao redor do mundo, Woody Allen chega à mais famosa cidade italiana. Aqui Allen nos apresenta quatro histórias distintas que acontecem em Roma. A melhor e mais importante delas é a protagonizada pelo próprio diretor que, interpretando um pai que vai à Itália com a esposa encontrar a filha que vai casar, acaba descobrindo no pai de seu genro um talento nato para a ópera. As melhores linhas do roteiro estão nessa esquete, saídas da boca de um Woody Allen mais velho e afiado. Uma segunda história envolve um casal que vai à Roma passar a lua de mel e acaba se envolvendo em uma trama inesperada de traição - com a participação de uma Penélope Cruz de parar o trânsito. Aqui, Allen parece dizer com todas as letras que uma pulada de cerca pode fazer muito bem ao casamento, coisa apenas insinuada com certo recato em outras de suas obras. Em uma terceira esquete, acompanhamos mais uma história de traição, dessa vez protagonizada pelos ótimos Jesse Eisenberg e Ellen Page - esta última com uma personagem feminina fascinante. Aqui Allen optou por colocar um Eisenberg mais velho interpretado por Alec Baldwin visitando seu próprio passado à la Meia-noite em Paris, o que fez com que a narrativa perdesse toda a força nostálgica que deveria ter. Por último, temos Roberto Benigni que se vê transformado em uma celebridade da noite para o dia em uma trama que mais cansa do que faz rir, mas cujo ótimo desfecho questiona a fugacidade da fama como metáfora para a vida. Com um roteiro marcado pelo inusitado, essa última empreitada de Woody Allen diverte, mas passa longe de ser uma homenagem, e todas as tentativas de fazer uma soam totalmente artificiais. Esse foi um filme feito em Roma, e não para ela, e basta dar uma olhada em Manhattan ou Meia-Noite em Paris para notar as diferenças crassas. Destaque para a interpretação de Allen que, como diretor, não parece amar Roma tanto assim.