sábado, 4 de agosto de 2012

Da China, com amor

Faz tempo que o cinema oriental deixou de orbitar apenas ao redor do Japão. Nos últimos anos, o cinema da China cresceu e tem chamado atenção da crítica mundial por produzir obras em um terreno onde não havia rotação de culturas e os filmes de artes marciais monopolizavam o plantio. Esse novo cinema chinês é importante porque herda uma postura das Nouvelles Vagues europeias e do cinema americano produzido nas décadas de 60 e 70 que se alia a uma maneira muito própria de se colocar.

É dentro desse contexto que surge Wong Kar Wai, um dos mais interessantes diretores desse movimento contemporâneo. Com uma estética que imediatamente salta aos nossos arredondados olhos ocidentais, em um primeiro momento ele pode parecer muito mais um esteta do que um diretor propriamente dito. Mas Wong Kar Wai vai além ao criar um vínculo quase inerente entre forma e conteúdo, fazendo com que antes de ser apreciada como um mero objeto, a imagem tenha um significado.

Essa combinação faz com que tudo nos filmes de Wong Kar Wai pareça exuberante na mesma medida em que é intimista. Exuberância que deriva das imagens quase experimentais, das películas altamente granuladas, das cores fortes, das alterações de velocidade, dos filtros, luzes e texturas; intimidade que surge em metáforas, uma vez que seus filmes falam, através dessa rica miríade de artifícios técnicos, da poesia escondida nos pequenos acontecimentos do cotidiano. E quase sempre esses pequenos acontecimentos são os encontros e desencontros amorosos de seus personagens solitários e errantes.

Amores Expressos - 1994
Em Amores Expressos (Chung Hing sam lam, 1994), temos um filme dividido ao meio por duas histórias muito parecidas. Na primeira delas, temos um policial com um ritual cheio de significados. Todos os dias ele compra uma lata de abacaxi em conserva cuja data de vencimento deve ser dia primeiro de maio, data que sua namorada marcou para eles acabarem o relacionamento. Quando esse dia chega, ele promete a si mesmo que vai se apaixonar pela primeira mulher que entrar pela porta do bar onde está sentado. E eis que surge uma traficante de drogas com uma peruca loira barata que parece ter saído direto dos tempos dourados de Hollywood, vestindo uma capa de chuva e óculos escuros porque, segundo ela, nunca se sabe quando vai chover ou fazer sol. Na segunda metade do filme, temos outro policial que tenta esquecer um relacionamento enquanto conversa com objetos inanimados nas noites solitárias de seu apartamento. Solidão tão grande que ele sequer percebe que aquela moça franzina que trabalha na lanchonete em que ele come todos os dias e escuta California Dreamin’ do The Mamas and Papas no mais alto volume está apaixonada por ele.

Se a primeira é uma história de amor com data de validade, a segunda é uma sem previsão de fabricação, em que temos dois personagens tentando lidar com uma solidão muito profunda e semelhante. Provavelmente o filme mais despretensioso de Wong Kar Wai, Amores Expressos parece ter sido dirigido com a energia de um diretor que acabou de sair da escola de cinema. Todos os elementos da estética do diretor citados anteriormente estão presentes aqui, onde é possível perceber a marcante fotografia de Christopher Doyle, contribuinte recorrente do diretor chinês.

Felizes Juntos - 1997
Em Felizes Juntos (Chun gwong cha sit, 1997) temos um casal chinês que vai à Argentina com o propósito de recomeçar. E vamos recomeçar são as palavras que sustentam o roteiro e que estão ali o tempo inteiro lembrando os personagens o que estão tentando fazer ali. Po-Wing é um homem intempestivo e extrovertido, enquanto Yiu-Fai se mostra quieto e reservado, dois personagens que tentam continuar juntos a despeito de suas personalidades absolutamente díspares.

Algumas das primeiras cenas em P&B mostram os personagens perdidos enquanto vão em busca das cataratas do Iguaçu, cuja figura está impressa em um abajur barato e luminoso que trouxeram da China junto com as esperanças de darem certo. Essas cenas iniciais mostram exatamente o estado em que os personagens se encontram, tentando recomeçar, mas sem saber muito bem como. Somente depois que discutem e resolvem recomeçar mais uma vez é que a tela ganha os tons crus, viscerais e vívidos que fizeram a fotografia elevar o filme ao status de soberbo.

O que se segue em tela são as tentativas infrutíferas dos dois de ficarem juntos (perceba a ironia do título), cada um a sua maneira e ambos limitados por suas personalidades complexas e contrastantes. Como todo filme que se preze, as imagens de Felizes Juntos falam muito mais que seus eventuais diálogos, mas seu diferencial está nas riquíssimas metáforas escondidas nas mais diversas cenas dirigidas com brilhantismo por Wong Kar Wai, com destaque maior para aquela em que os dois protagonistas dançam tango no meio de uma cozinha velha em ruínas. Por Felizes Juntos, Wong Kar Wai levou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes.

Nesse filme em especial é possível perceber a relação de Wong Kar Wai com a cultura latina. Como admirador da obra de Manuel Puig e da música latina levada para os bares de Hong Kong na década de 60 pelos filipinos, em Felizes Juntos temos inclusive Cucurrucucu Paloma interpretada por Caetano Veloso, mesma versão que mais tarde seria utilizada por Almodóvar em seu Fale com ela (Hable com ella, 2002). Essa nova geografia cinematográfica que se estabelece em seus filmes gera um choque de fronteiras culturais que apenas evidencia positivamente o sentimento de nomadismo presente em seus personagens.

Amor à flor da pele - 2000
Em Amor à flor da pele (Fa yeung nin wa, 2000), Su Li-zhen e Chow Mo-wan são vizinhos em um pequeno aglomerado de apartamentos em Hong Kong. Ambos são casados e começam a desconfiar que seus respectivos cônjuges são amantes. Mas o inesperado acontece quando Su e Chow se vêem apaixonados um pelo o outro. É então que a câmera de Kar Wai parece dançar com seus personagens, com os movimentos calculados, os olhares tímidos e as palavras quase nunca ditas, tudo pontuado por uma trilha sonora que evidencia cada um desses gestos velados, vestindo cada cena com uma nova camada de interpretação que apenas enriquece a trama, além de conferir mais erotismo a cada um desses movimentos. Se havia alguma dúvida de que Wong Kar Wai seria um bom diretor, esse filme dilui todas elas, mostrando o chinês dirigindo com extrema habilidade e sensibilidade cenas enganosamente simples com ângulos meticulosamente calculados.

O brilhantismo de seu filme está em entrelaçar a perspectiva do amor e a da traição de tal maneira que ambas pareçam a mesma coisa. Os cônjuges de Sun e Chow, por exemplo, nunca têm os rostos mostrados. É dessa forma que Kar Wai representa o repúdio que os protagonistas sentiriam por si mesmos se ficassem juntos, como se, ao fazerem isso, a câmera também fosse lhes virar a lente. Seus personagens se encontram e se apaixonam, mas esse sentimento nunca é consumado, apesar do título indicar exatamente o que ambos estão sentindo. Amor à flor da pele é uma história de amor que não acontece e é considerado pela prestigiosa seleção da Sight & Sound um dos 50 melhores filmes da história.
 
Para encerrar, há um pequeno e maravilhoso arco narrativo em Felizes Jutos que para mim resume o que é o amor filmado por Wong Kar Wai. Yiu-Fai conhece um rapaz em seu trabalho que possui uma ótima audição. Sentados em um bar barulhento, o rapaz consegue ouvir uma conversa distante mesmo sob todos os ruídos.  Certo dia esse rapaz revela que economizou dinheiro suficiente para conhecer o fim do mundo, no extremo sul do continente, onde existiria um farol capaz de fazer com que todas as tristezas reveladas em voz alta por aqueles com o coração partido ficassem para trás.

Antes de ir dançar, o rapaz tira um gravador do bolso e pede para que Yiu-Fai diga qualquer coisa para que ele levasse consigo. Quando finalmente chega ao farol e tenta ouvir a gravação de Yiu-Fai, o rapaz de audição tão singular não consegue ouvir nada. Porque naquele dia, ao tentar dizer suas tristezas em voz alta para o gravador, Yiu-Fai apenas chorou. E esse é exatamente o cinema de Wong Kar Wai. É a poesia latente que se esconde e se revela nos abismos que surgem entre seus personagens mesmo quando eles se tocam.