segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Vidas Amargas (East of Eden - 1955)


A história de Caim e Abel é uma das mais antigas do mundo. Quando Caim mata seu irmão, é então condenado a vagar ao leste do paraíso. Mas no filme de Elia Kazan o mito bíblico ganha uma roupagem deliciosamente moderna. Nele - e quaisquer semelhanças com os nomes não são coincidências - temos o patriarca Adam e seus dois filhos, Aron, o preferido, e Cal, a ovelha negra, interpretado pelo imortal James Dean. A princípio o filme de Kazan parece ser apenas uma releitura do mito em questão, mas logo camadas psicológicas são acrescentadas à trama criando uma dinâmica totalmente inesperada ao mostrar as tentativas de Cal de se tornar um ser humano melhor, ao mesmo tempo em que testemunhamos a decadência de Aron. É interessante notar como as definições de bem e mal atribuídas aos personagens provêm o tempo inteiro do pai e, no final do longa, quando a presença desse personagem na trama é questionada, os julgamentos criados pelo público ali de nada servem, fazendo com que o filme atinja com extremo êxito os questionamentos sobre a origem e a essência do bem e do mal que se propôs a fazer. Destaque absoluto para James Dean, que representou de forma soberba o típico personagem mal compreendido que o faria imortal, assim como para a direção de atores de Elia Kazan.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Era uma vez em Gotham City


Gotham City é uma cidade dominada pelo crime e pela corrupção. Sombria e violenta, eis que um homem resolve enfrentar as forças do mal. Órfão de pai e mãe desde cedo, milionário e com um trauma envolvendo morcegos, Bruce Wayne veste um manto negro e se torna Batman, um herói sombrio que combate tudo de ruim nas próprias sombras em que o mal habita. E foi nessa história que os olhos atentos de Christopher Nolan viram um potencial nunca antes perscrutado no cinema quando o assunto era quadrinhos. Gotham City finalmente havia sido encontrada.


Quando o pequeno Bruce Wayne caiu em um poço e se viu cercado de uma revoada de morcegos, estes se tornaram seu maior medo, e quando viu seus pais serem assassinados na sua frente na saída da ópera, a vingança, sua melhor amiga. Quando o garoto se tornou homem, Nolan acertadamente gastou boa parte do primeiro filme de sua trilogia, Batman Begins, para mostrar a transformação que ocorreu em Bruce para ele se tornar Batman. Ele aprendeu a fazer com que seu medo se tornasse o maior medo de seus inimigos e aprendeu a diferença entre vingança e justiça.

Gotham City é um microcosmo que representa o coração de cada homem e Batman é aquilo que nós temos que acreditar para salvar a nós mesmos de nos tornarmos aquilo que mais tememos. Claro que combater o mal é vital para a salvação de Gotham, mas o momento do combate é apenas o ápice simbólico da verdadeira guerra. O vilão que Bruce Wayne deve enfrentar não é Ducard que quer destruir Gotham por acreditar que ela não tem mais salvação, mas sim a ideia de que Gotham não pode ser mais salva. Para isso, ele deixa de ser um homem para se tornar uma ideia, uma bandeira, um símbolo. Bruce Wayne se torna Batman, pois apenas uma ideia pode ser tão poderosa quanto outra.

Nolan conseguiu imprimir um tom contemporâneo ao seu Batman ao sugerir não um herói que combate o mal, mas um homem comum que transforma-se em algo muito maior que ele mesmo para instigar cada cidadão de Gotham a fazer o mesmo. Quando afirmei que combater o mal era apenas o ápice da verdadeira guerra, é porque essa guerra é travada dentro de todo homem em Gotham City, e Batman é aquilo que os encoraja a escolher o bem.


Depois de um início profundo, Nolan nos presenteia com uma obra perturbadora que virou um clássico instantâneo. Se em Batman Begins tudo gira em torno do medo, em The Dark Knight temos isso ampliado através da dualidade presente entre Batman e o Coringa, que tenta a todo custo mostrar ao próprio Batman que tudo que ele acredita é uma mentira e, assim como Ducard, que Gotham não tem salvação. Se no primeiro filme Gotham era um personagem quase metafórico, aqui ela ganha ares de protagonista ao ser posta à prova pelo vilão interpretado por Heath Ledger, do atentado terrorista duplo aos navios à corrupção do aparentemente incorruptível Harvey Dent, que representava para Gotham tudo que Batman não poderia ser.

Com um desenvolvimento primoroso e um final digno de palmas, esse segundo ato se firma como o melhor filme da trilogia de Nolan. Aqui, Kate Holmes, que destoava completamente do tom sombrio de toda obra, foi acertadamente substituída, e Alfred veio um tom menos engraçado, piadas que na primeira parte também destoavam por seu excesso. O Coringa de Heath Ledger dispensa apresentações. De sua brilhante atuação, aliada a um roteiro impecável, nasceu um vilão que entrou para a história do cinema ao lado de Hannibal Lecter e Darth Vader.



Depois do sacrifício de Batman no final do segundo filme, chegamos à tão aguardada conclusão da trilogia. Em The Dark Knight Rises temos um Bane interpretado por Tom Hardy que chega a Gotham City com o único propósito de destruir. Ele é um vilão assustador porque faz isso de diversas formas, destruindo o corpo da cidade, com seus explosivos, sua alma, ao revelar as verdadeiras faces de Harvey Dent, e o próprio Batman, reduzindo-o apenas a Bruce Wayne. É nesse momento que o filme de Christopher Nolan desabrocha. Ele se reinicia. Leva Wayne e o espectador para o primeiro filme e toda sua filosofia acerca do medo para que o homem volte a se tornar a lenda.

Apesar desse foco específico, o terceiro filme da trilogia de Nolan não é ruim, mas é claramente o pior dos três, possuindo erros crassos facilmente notados por um público mais exigente. Pressionado pelo sucesso do filme anterior, Nolan de fato cria um filme grandioso, mas também acaba concebendo um filme grande, fazendo com que sua maior virtude seja também seu maior pecado. Muitas vezes as tentativas de torná-lo um grande filme são tão irritantes que o resultado é apenas um desafio ao bom senso e ao realismo que sustentou os dois primeiros filmes. O principal problema aqui é ter uma profundidade um tanto inferior a dos dois primeiros, lacuna que indiretamente tenta ser suprida por reviravoltas do seu intricado roteiro, uma montagem paralela de qualidade inquestionável e pela excepcional trilha sonora de Hans Zimmer.

Entretanto, esses erros se tornam menores ao encararmos a trilogia como um todo. Nolan foi o primeiro cineasta a perceber e colocar em tela a profundidade presente em um personagem que até então sempre foi tratado como mero entretenimento pop e, por esse motivo, já merece o reconhecimento que recebeu ao longo da feitura dos três filmes. Com um final satisfatório que encerra a trilogia com o respeito que ela merece, temos como resultado a obra cinematográfica mais madura proveniente dos quadrinhos já realizada, e que deve ser utilizada como referência por um bom tempo.