sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Festim Diabólico (Rope - 1948)


Em Festim Diabólico temos a história de Brandon e Phillip, que matam o amigo David estrangulado e escondem seu corpo em um grande baú que fica à vista de todos na sala de estar. Não satisfeitos, convidam os amigos e a família do morto para um jantar cujos pratos são servidos sobre o próprio baú, tudo para desafiar a suposta perfeição do crime cometido. Para deixar as coisas mais interessantes, Brandon faz questão de convidar um antigo professor, vivido por James Stewart -  provavelmente no papel mais obscuro dentre os que atuou nos filmes de Hitchcock -, que ele julga ser a única pessoa dentre os convidados apto a perceber e - mais importante - compreender os motivos do crime cometido, motivos esses que parecem ter saído das páginas de um Dostoiévski. O argumento de Festim é inovador porque desde os primeiros frames estamos cientes de que ali não há mistério para ser resolvido. Sabemos quem morreu, quem matou e o motivo do assassinato. O que nos resta é ficar de olhos grudados em sua trama maravilhosamente simples, cujos acontecimentos e seus desdobramentos são puramente lógicos.


Festim Diabólico se passa por inteiro em um único ambiente. O espaço limitado e a narrativa puramente lógica e cronológica possibilitaram Hitchcock realizar um filme cuja direção apuradíssima e montagem precisa dão a impressão de que ele foi filmado de uma só vez, algo que confere a obra não apenas uma estética positivamente teatral - o filme foi baseado em peça homônima - , mas fazem com que a audiência prenda a respiração durante os oitenta minutos que se seguem ao assassinato. Filmar o filme em um única tomada não foi possível, mas as tomadas incrivelmente longas fizeram do resultado final tão impressionante como se houvesse sido. A quase completa ausência de trilha sonora, com exceção da diegética - aquela oriunda dos próprios elementos em tela e incorporada pela narrativa - ajudam a construir o tom intimista e sufocante que a trama necessita.



O pouco espaço poderia nos levar a pensar que isso limitaria a deslocação e, portanto, a captura da imagem por parte do diretor, mas o que seria limitação, nas mãos de Hitchcock se torna seu maior trunfo. Sua câmera nos transforma em convidados da festa, permanecendo estática e fixa ou caminhando e observando pontos cruciais para o desenvolvimento da trama, do suspense ou da tensão. Um exemplo perfeito da habilidade de Hitchcock acontece quando a festa está perto do fim. Enquanto os convidados conversam fora do campo de visão da câmera, esta se mantém fixa diante do baú enquanto a empregada retira os pratos e candelabros de cima do mesmo, trazendo um punhado de livros que devem ser guardados ali, enquanto os personagens continuam conversando e nem mesmo os assassinos se dão conta do que acontece.

Os personagens vividos de forma espetacular por John Dall e Farley Granger retratam de forma brilhante as reações completamente opostas que se seguem a um assassinato. Enquanto Brandon revela um controle  racional e emocional impressionantes para quem acabou de matar alguém, Phillip tenta a todo custo se controlar e não os trair. Essas naturezas tão díspares tornam a tensão ainda maior. Provavelmente devido a sua forma original, os censores da época não perceberam que parte dessa tensão é sexual. Basta um olhar um pouco mais cuidadoso, principalmente nas primeiras cenas e naquelas que indicam que o apartamento possui apenas um quarto, para perceber o óbvio contexto homossexual entre os personagens principais.

Festim Diabólico é uma obra de arte. Nenhum ângulo é por acaso, nenhuma linha é banal e as atuações possuem a qualidade garantida da lendária direção de atores de Hitchcock. É o tipo de filme que pega a audiência pelo pelo pescoço e a faz ficar grudada na cadeira esperando ansiosamente o que acontecerá em seguida. Um filme que reafirma de forma redundante e contundente que Alfred Hitchcock é o mestre do suspense.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Disque M para Matar (Dial M for Muder - 1954)


Em Disque M para Matar somos apresentados a Tony Wendice, um jogador de tênis aposentado que elabora um plano para matar sua esposa, interpretada por Grace Kelly. Escrito dessa maneira a trama parece simples, mas é uma das mais complexas filmadas por Alfred Hitchcock. O roteiro intricado, engenhoso e repleto de reviravoltas inesperadas faz com que o espectador se veja torcendo tanto pelo alvo do assassinato quanto pelo marido que deseja liquidá-lo. A base do filme são seus diálogos, pois são através destes, muito mais que pelas ações, que todo o filme é construído. Onde algum diretor poderia pesar a mão em exaustivos flashbacks, o diretor inglês permite que seus atores desenvolvam todo o texto em longas cenas explicativas que prendem a atenção de quem assiste de uma forma hipnotizante. Lançado no mesmo ano que Janela Indiscreta, Disque M para Matar pode não ser tão celebrado quanto o primeiro, mas bem que poderia. Destaque para a sequência em que a personagem de Grace Kelly vai atender o fatídico telefonema e a câmera dá a volta em seu corpo até obter o mesmo ponto de vista do assassino, enquanto a marcante trilha sonora e o excelente jogo de sombras fazem o resto do trabalho.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mary Poppins (1964)


A história da babá mágica que literalmente vem dos céus segurando seu icônico guarda-chuva foi recontada diversas vezes e em diversas mídias, mas nenhuma versão moderna conseguiu resgatar o frescor e magia presentes no original de 64 estrelado por uma iniciante Julie Andrews, que ganharia o Oscar de melhor atriz pelo papel e ficaria eternizada pouco tempo depois ao protagonizar A noviça rebelde. Proveniente do punhado dos filmes Disney destinados à toda a família, Mary Poppins cumpre bem o seu papel ao divertir crianças e pais e trazendo mensagens positivas embutidas para todos. Talvez a mais importante seja para os próprios pais, uma vez que o filme sugere a maior transformação da trama no rígido Mr. Banks, pai da família que mora na rua das Cerejeiras, número 17. Mesclando live action e animação, efeitos especiais incríveis para a época e músicas bem divertidas - como não rir ao tentar pronunciar supercalifragilisticexpialidocious, a palavra que você usa quando não se tem nada a dizer? -, Mary Poppins é um filme infantil maravilhoso. Destaque para Dick Van Dyke e seus números de sapateado.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ricky (2009)


No terceiro filme da chamada trilogia da morte do francês François Ozon (precedidos por Sob a areia e O tempo que resta), encontramos Katie e Paco, uma casal absolutamente comum que começam uma história de amor absolutamente comum. Toda essa normalidade é interrompida quando nasce Ricky, um bebê que desenvolve nada menos que asas. Enveredando pelo realismo fantástico para contar uma história sensível e delicada, Ozon mostra o impacto da chegada de Ricky em uma família totalmente desestruturada, composta por Katie, Paco e Lisa, a pequena filha de Katie. E é de Lisa que tudo gira em torno. Ela é a verdadeira protagonista do filme. Todas as consequências das rachaduras familiares passam por ela, desde ser negada por seu pai biológico, passando por seu sentimento de exclusão diante do relacionamento de Katie e Paco, até a chegada de Ricky. Um dos melhores pontos do roteiro é nunca explicar de fato a natureza de Ricky confirmando que esse é um filme em que o espectador mais contribui do que recebe. Destaque para a interpretação da pequena Mélusine Mayance como Lisa, acima da média.

sábado, 13 de outubro de 2012

Akira (1988)


O filme de Katsuhiro Ohtomo nos leva a Neo-Tokyo, reconstruída depois de um cataclisma misterioso ocorrido no fim da Terceira Guerra Mundial. Misturando alta tecnologia e uma sociedade marginalizada, Akira é um dos exemplos mais latentes do cyberpunk presente no cinema, levando o dizeres high tech, low life - algo como "alta tecnologia, baixo nível de vida" - ao pé da letra. No filme de traços hipnotizantes de Ohtomo temos a história de Tetsuo, que depois de entrar em contato com uma experiência do governo, passa a desenvolver poderes devastadores e incontroláveis. O grande trunfo de Ohtomo foi mesclar elementos como a paranoia militar e governamental, o fascínio e terror diante do poderio bélico, a delinquência juvenil e o colapso social, assuntos enraizados na psique japonesa, com um adolescente sem controle, figura que sintetiza todos os medos e anseios do Japão. Para uma sociedade como a japonesa, nada seria mais assustador do que um adolescente incontrolável com poderes apocalípticos. Um filme intenso e violento que conquistou uma legião de fãs - e virou cult. Destaque para sua estranha trilha sonora que, aliada aos traços sem pudor de Ohtomo, fazem de Akira um filme inquietante.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Noviça Rebelde (The Sound of Music - 1965)


Julie Andrews e Christopher Plummer protagonizam um dos musicais mais celebrados da história do cinema.  Com freiras que cantam, crianças brancas e loiras que parecem ter saído direto dos comerciais da década de 60 e a Segunda Guerra dividindo o filme ao meio, A noviça rebelde poderia ter sido um fiasco ao mesclar elementos tão incomuns em uma só narrativa, mas seu roteiro bem estruturado, sua montagem precisa, suas músicas inesquecíveis e sua improvável história de amor entre uma péssima aspirante ao sacerdócio e um capitão da marinha permitiram que o filme se tornasse um clássico. Também deve-se reconhecer a flexibilidade narrativa presente no filme, que vai naturalmente de um extremo de leveza, diversão e bom humor para um de tensão e união causada pelo avanço nazista em terras austríacas, algo dificílimo de se fazer em um musical cuja proposta era não perder sua magia, e que aqui é realizado de forma soberba. Um filme que não envelhece, para ser visto e revisto! Destaque para as canções e números musicais que, perspicazmente, começam como continuações de diálogos, quase nunca sendo abertamente anunciados ao espectador, fazendo com que tudo aconteça da forma mais natural possível.