segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Lucy (2014)



Lucy começa de forma frenética. Envolvida sem seu consentimento no mundo do tráfico de drogas, a personagem de Scarlett Johansson logo é transformada, como diriam nesse mesmo mundo, em uma mula. Em seu estômago são colocados pacotes de uma nova droga a ser transportada, mas um deles acaba estourando e, de uma hora para outra, ela se torna capaz de acessar o potencial de seu cérebro como nenhum ser humano jamais conseguiu.

O início de Lucy e sua premissa prometem bastante, principalmente porque, à medida em que o tempo passa e a protagonista consegue acessar mais de sua capacidade cerebral, a porcentagem desse acesso é mostrado em tela, levando a nos perguntar o que ela será capaz de fazer a seguir e gerando grande expectativa pelo que está por vir. Mas o que vem acaba sendo decepcionante.

Isso porque o filme investe na ideia de que utilizamos apenas 10% de nossa capacidade cerebral e que, ao acessarmos maiores porcentagens, somos capazes de fazer coisas incríveis. Mas as coisas que Lucy faz são incríveis demais! Nem mesmo Morgan Freeman, contratado para viver o cientista que praticamente desenha os conceitos envolvendo essa ideia, é capaz de agregar credibilidade a ela. Pelo contrário. A pseudociência é tão escancarada que a escolha de um ator de peso como Freeman sai pela culatra, fazendo tudo soar muito mais patético do que deveria.  

O roteiro passa longe de sustentar as coisa que Lucy se torna capaz de fazer ao longo filme. Seus poderes fogem às raias da lógica, fazendo nos perguntar se a droga que ela absorveu é capaz de provocar alucinações em que a assiste. Esse descontrole apenas cresce, sendo responsável por entregar um desfecho tão metafísico quanto exasperante. O interessante é notar que, apesar dessa subida crescente de tom, não deixamos de querer saber o que vai acontecer, nem que seja simplesmente para descobrir aonde é que tudo isso vai nos levar.

E é preciso dar os mais que merecidos créditos a Scarlett Johansson. Sua Lucy é maravilhosa, indo de uma coitada desafortunada a uma mistura de Einstein e Bruce Lee em questão de segundos, e essa transformação brusca só ocorre de maneira orgânica por estar em mãos talentosas. A atriz consegue lidar com facilidade impressionante de uma personagem complexa, que vai perdendo seja lá o que for que nos define como humanos à medida em que ganha poderes que nenhum humano possui.

Para aqueles que conseguirem abstrair toda a pseudociência que parece ter saído de um site de curiosidades da internet, Lucy se torna um excelente entretenimento. O filme possui todo o talento e beleza de Scarlett Johansson, cenas de ação que combinam com pipoca, e metáforas visuais que podem gerar uma boa filosofia de bar depois. Ainda que eu acredite que Scarlett Johansson seja motivo suficiente para ver qualquer coisa que seja.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Annabelle (2014)



Depois do sucesso de Invocação do Mal, que considero um dos melhores filmes de 2013, nada mais natural para os envolvidos no projeto do que lançar um produto derivado de sua galinha dos ovos de ouro. Por isso, Annabelle, a boneca de sorriso sinistro que aparece no início de Invocação do Mal, ganhou um filme para chamar de seu. Ainda que não seja tão bom e tão assustador quanto o filme do qual deriva, Annabelle certamente entra na lista de filmes de terror que valem o ingresso. O maior trunfo do filme é fazer com que a sensação de perigo esteja presente desde o início. A boneca é assustadora mesmo quando não está possuída, e os inúmeros closes em seus olhos apenas reforçam isso. O estilo de Annabelle dialoga bem com o de Invocação do Mal. Televisores desligam sozinhos e portas fecham sem estar ventando, mas mesmo esses clichês são capturados com muita elegância. Mas a mitologia do longa é questionável. A boneca é possuída pelo espírito da mulher morta, mas, no decorrer da fita, o próprio demônio chega a aparecer, deixando qualquer espectador minimamente atento bastante confuso. Se temos um filme derivado de outro, seus universos deveriam ser os mesmos, com seus roteiros obedecendo às mesmas regras, o que não acontece por aqui. Ainda que utilize artimanhas pouco honradas, como o aumento repentino do volume da trilha sonora, tenha feito a proeza de desperdiçar as melhores cenas em seu trailer de divulgação e seu final se contente com soluções baratas, Annabelle cumpre muito bem seu papel. Dentre os atores, quem mais se destaca é o bebê, cujo carisma apenas evidencia a falta desse elemento nos protagonistas humanos. Destaque para as excelentes referências a O Bebê de Rosemary, de Polanski.

sábado, 12 de julho de 2014

Malévola (Maleficent - 2014)


Confesso que, dentre todos os contos de fadas que conheço, A bela adormecida sempre foi um dos que menos gostei. A história que mistura uma roca de fiar e um improvável amor à primeira vista nunca soaram muito convincentes aos meus ouvidos. E quando a Disney resolveu, em sua empreitada de renovar seus clássicos, fazer uma nova versão de seu filme de 1959 sob a perspectiva de uma Malévola interpretada por Angelina Jolie, torci o nariz. Mas logo me rendi ao argumento, que consegue revitalizar um conto que existe desde o século XVII injetando mais complexidade e profundidade. O roteiro, entretanto, não deixa de ter buracos. O mais evidente deles é o nome da personagem principal que, embora previsivelmente humanizada no primeiro ato da trama, o carrega desde que nascera. Claro que a Disney, enquanto empresa, não poderia deixar de utilizar o nome de Malévola, haja vista que ela é, em última instância, um produto. Entretanto, artimanhas muito simples no roteiro poderiam ter resolvido esse impasse. Angelina Jolie se entrega ao papel de maneira impressionante, construindo sua Malévola com elegância e ironia, honrando a dublagem do filme de 1959 com uma entonação de voz calculada. Elle Fanning, em um papel que poderia ser um desastre, sustenta sua atuação com muito carisma. Os efeitos especiais de ponta dão conta do recado, embora muitas das criaturas reproduzidas não possuam a menor graça. Destaque para o famigerado beijo de amor verdadeiro, que aqui é reformulado radical e supreendentemente, fazendo de Malévola um filme como poucos dentro de seu nicho.  

domingo, 8 de junho de 2014

The Normal Heart (2014)


Todos se divertem na praia como se estivessem no paraíso quando, sem qualquer aviso prévio, um deles desaba de joelhos na areia, tal qual um sinal nefasto de que tudo logo iria se transformar em um inferno. É com essa cena impactante que somos introduzidos à The Normal Heart, filme da HBO que trata da luta dos homossexuais durante o advento da AIDS na década de 80. Mas resumir o filme apenas a isso seria empobrecê-lo, tendo em vista que esse é apenas o centro no qual muitas outras questões orbitam, como a omissão descarada dos governantes e as diferentes faces que essa luta adquire. Sendo a transmissão sexual uma das primeiras vias de contaminação identificadas da doença, a comunidade gay deve enfrentar a si própria ao questionar, pela primeira vez, a liberdade sexual que tanto lutou para conseguir. A escolha do elenco foi certeira. Mark Ruffallo está impecável como o incansável Ned Weeks, Juia Roberts está em um dos melhores papéis de sua carreira, Alfred Molina encarna com maestria o difícil papel daquele que ama seu irmão, mas não o vê como um igual, e até mesmo Matt Bomer, que foi claramente a escolha apelativa do elenco, não deixa a desejar. Tratando de amor, luta e luto, The Normal Heart é um filme sem final feliz cujo desfecho conhecemos desde o primeiro instante. Destaque absoluto para a cena que mostra um morto tratado como lixo. É de quebrar o coração de qualquer pessoa que tenha um.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Uma Aventura Lego (The Lego Movie - 2014)


Uma Aventura Lego é, descaradamente, uma tentativa de vender os brinquedos licenciados da marca, mas o que me surpreendeu foi o fato dessa tentativa ter dado tão certo enquanto produto cinematográfico. O longa se apropria do clichê do escolhido para contar uma história que possui a virtude de ser mais inteligente do que precisa, o que acontece, principalmente, por ela ser fiel a uma mitologia divertida e que faz todo o sentido dentro da trama. Geralmente, as vozes dos dubladores em filmes de animação são ignoradas, mas Morgan Freeman está impagável como o velho Vitruvius. O final do longa possui, ainda, uma quebra brusca e arriscada da linguagem adotada, o que poderia ter sido um completo desastre, principalmente devido à escolha do elenco, mas que eleva Uma Aventura Lego ao patamar de filmes como Toy Story. Impossível não rir ao menos uma vez. Destaque para a música Everything is Awesome, assustadoramente simples e eficiente, e para Emmet, a personagem principal cujo carisma conquistará os espectadores mais carrancudos.

sábado, 31 de maio de 2014

Yves Saint Laurent (2014)



A impressão que tive ao assistir Yves Saint Laurent foi a de que o filme já havia começado antes de eu chegar. Isso porque, quando o longa se inicia, Yves já trabalha com o renomado Christian Dior. E o que parece ser apenas uma consequência do corte necessário da vida da persona biografada se revela um sintoma de um roteiro que priva o espectador o tempo inteiro de cenas cruciais e que acaba por deixar de mostrar de forma consistente a maneira como o trabalho do estilista se consagra. 

Para se ter ideia da gravidade do que estou falando, o filme passa apenas por cima da revolução cultural que Saint Laurent causou ao colocar, pela primeira vez, em uma passarela, mulheres usando smokings e calças, trajes que, até então, eram usados apenas por homens. Yves Saint Laurent foi, ainda, o primeiro estilista da história a colocar uma modelo negra em uma passarela, mas o filme parece ignorar completamente esse fato.

O roteiro ainda nos priva de cenas importantes da vida pessoal do estilista. Em 1960, por exemplo, Saint Laurent foi convocado pelo governo francês para lutar na Guerra de Independência da Argélia. Saint Laurent sofreu homofobia, teve um colapso nervoso e acabou em tratamento psiquiátrico, incluindo tratamento com eletrochoques. Mas o longa acaba resumindo tudo isso em apenas uma cena em que o protagonista aparece transtornado e seu amado lhe faz uma visita. 

A relação de Laurent e Pierre Berge - seu companheiro na vida, nos negócios e no amor - é abordada com empenho, mas da mesma forma que a trajetória profissional do estilista é retratada basicamente com cenas chaves que parecem estar ali apenas por obrigação, as cenas de sua vida privada soam bastante artificiais, como se elas existissem apenas porque é de praxe, em cinebiografias de pessoas públicas, mostrar vidas privadas conturbadas e sofridas. Prova disso é a cena final, que tenta dar profundidade ao que foi mostrado, mas que acaba soando patética. Como cereja do bolo, o recurso cinematográfico escolhido para encobrir esses defeitos são as paupérrimas narrativas em off feitas por Berge, que desafiam a inteligência do espectador ao se referir à fatos da vida de Saint Laurent como se não o estivéssemos vendo em cena.

O filme, entretanto, possui suas qualidades, como a caracterização impecável de Pierre Niney como um dos maiores estilistas do século XX e os modelos de Saint Laurent reproduzidos para a feitura do longa. A não ser por esses elementos, o filme é facilmente esquecível, o que é uma pena. Yves Saint Laurent teve uma vida interessantíssima, o que apenas aumenta minha tristeza ao constatar que esse grande potencial cinematográfico foi desperdiçado pelo que me parece ter sido culpa, principalmente, da falta de paixão de seus realizadores.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Praia do Futuro (2014)


Em Praia do Futuro, de Karim Ainouz, Donato se apaixona por Konrad, um alemão que ele salva de um afogamento na praia que empresta seu nome ao título. O conflito acontece porque Donato, visto como um herói pelo irmão Ayrton, deixa este último e sua mãe para viver na Alemanha. Lá, Donato se reconstrói, encontrando na fria Berlim e em suas piscinas cobertas a liberdade que ele não encontrava nas praias ensolaradas do Ceará. O filme é estruturado em três partes com títulos inteligentíssimos que dialogam perfeitamente com os arcos narrativos apresentados. Estes se concentram nas três personagens principais e, embora outras sejam mencionadas, como a mãe de Donato, o fato de nunca aparecem em tela apenas multiplica o peso de sua ausência. Com personagens dificílimos, possuidores de grande carga dramática e poucas falas, o trio de protagonistas não deixa a desejar em nenhum momento, com destaque absoluto para Wagner Moura, que apenas se confirma como um dos melhores atores em atividade no Brasil. Tratando do encontro do homem consigo mesmo e da reconstrução de sua identidade, Praia do Futuro é um filme sensível que prova que nem todo recomeço é necessariamente feliz, ainda que o protagonista dance sob uma música alegre que não é a que escutamos. Destaque para as imagens belíssimas capturadas por Ainouz e os silêncios que surgem mesmo quando as personagens estão juntas, refletindo a máxima de que homens falam pouco.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Godzilla (2014)


Se Godzilla nasceu da paranoia do homem em relação à energia nuclear, fonte de ambição e poder que acaba se transformando em sua perdição, essa nova releitura parece não ter esquecido isso. Godzilla tem um primeiro ato primoroso, levando os temores pós-Fukushima ao extremo nas cenas que se passam dentro de uma usina nuclear e encabeçadas pelo impecável Bryan Cranston. Nessa sequência, o monstro ainda desconhecido e o temor diante de um desastre nuclear se misturam de maneira magistral com os dramas humanos. Embora Godzilla demore mais de uma hora para surgir em cena e isso não seja um problema, a maior falha do longa acontece justamente depois de seu aparecimento, quando o monstro acaba se tornando coadjuvante de seu próprio filme. Os outros monstrengos, que deveriam servir apenas como aperitivo, acabam ganhando ares de prato principal. O roteiro ainda tenta consertar isso no terceiro ato, o que nos faz perguntar porque ele não fez isso antes. Aaron Taylor-Johnson, o protagonista humano do longa, tem um papel que não lhe concede muitas possibilidades cênicas, sendo completamente eclipsado pela atuação de Cranston e as aparições de Ken Watanabe. No mais, os efeitos especiais são caprichados e a trilha sonora, com sons que remetem ao Japão, contribui bastante para a construção da tensão, embora acabe soando mais como um apetrecho exótico diante de tanta gente falando inglês. Ainda que a mitologia de Godzilla gire em torno de um monstro essencialmente oriental, Godzilla parece mais um filme catástrofe americano. Destaque para a cena em que soldados pulam de paraquedas no meio de uma cidade destruída pelos monstros. Os tons escuros de vermelho parecem querer dizer que eles estão indo para o inferno.

domingo, 30 de março de 2014

Carrie, a Estranha (Carrie - 2013)



Carrie, a Estranha, dirigido por Brian de Palma em 1976, é um clássico do terror. Com uma Sissy Spacek numa interpretação insana na pele de Carrie, o longa se consagrou ao mostrar o desabrochar de uma adolescente paranormal que enfrenta a repressão familiar e escolar. Nessa nova versão, Carrie é interpretada por Chloë Moretz, e os problemas começam justamente nessa escalação. Embora Moretz seja uma atriz promissora, ela é conhecida demais por outros papéis para se passar por inocente. Ela veste roupas puídas e anda encolhida, mas por mais que se esforce, não engana ninguém. Quando o esperado baile de formatura chega, a personagem é subitamente hiperssexualizada, efeito sintomático da indústria que adora transformar o bizarro em objeto de desejo. Para condizer com essa hiperssexualização, as cenas desse terceiro ato foram gravadas com verdadeiro sadismo, reduzindo a poderosa personagem de Stephen King a uma adolescente vingativa. Como se isso não fosse o bastante, o filme perdeu completamente a mensagem de poder feminino contida no original. Nele, a passagem de menina para mulher é o centro da trama e está presente na associação entre a primeira menstruação de Carrie e a descoberta de seus poderes telecinéticos. Se no original Chris é a antagonista de Carrie justamente porque, para ela, esse assunto está mais que resolvido, chegando a convencer o personagem de John Travolta a participar de seus planos maldosos com ardis sexuais capazes de fazê-lo revirar os olhos, aqui ela é completamente subjugada pelo namorado machista. Amenizando o grotesco e soando altamente artificial, essa tentativa de transpor o livro de King para os dias atuais falha vergonhosamente. Mostrando uma Carrie de que estranha só possui o cabelo mal tingido, o filme acaba e ela se revela apenas uma adolescente tímida que precisava comprar roupas novas e fazer uma boa hidratação. Destaque para o cartaz e a cena em que Carrie voa: eles resumem bastante o que estou tentando dizer.

quinta-feira, 27 de março de 2014

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave - 2013)


“Existia uma terra de Cavalheiros e Campos de Algodão chamada O Velho Sul. Neste belo mundo, o Cavalheirismo teve seu último grande momento. Foi o último lugar em que se viu Cavalheiros e Damas Refinadas, Senhores e Escravos. Procure-o apenas em livros, pois hoje não é mais que um sonho. Uma civilização que o vento levou…”

Essas são as palavras, em tradução livre, que aparecem no início de E o Vento Levou... (Gone with the Wind, 1939), um dos filmes mais famosos do cinema. São com essas palavras, repletas de um sentimento de nostalgia a bons e velhos tempos, que um dos filmes mais cultuados do século passado descreve uma sociedade escravocrata. Este é apenas um exemplo de como a escravidão foi tratada pelo cinema americano ao longo de sua história. Senhores brancos foram sistematicamente retratados como benevolentes benfeitores, enquanto o trabalho dos negros nos campos era envolto por paisagens deslumbrantes e uma trilha sonora à altura.

É por esse motivo que, nesse contexto de filmes americanos acerca dessa temática, 12 anos de escravidão simplesmente se revela, em seus 134 minutos de duração, o mais importante filme sobre escravidão já feito. Apesar de ser de conhecimento geral a forma como escravos eram tratados e de dezenas de filme terem abordado esse tema, esse período da história nunca havia sido retratado francamente nas telas de cinema. Levou mais de 100 anos para que víssemos um chicote cortando um corpo negro nu e para que o homem branco escravocrata fosse mostrado como realmente era.

Em um filme com tamanha carga dramática, a escolha de um bom elenco é fundamental. A atuação no piloto automático de Paul Dano como um capataz arrogante e a nada orgânica aparição de Brad Pitt no terceiro ato são pontos negativos, mas a escolha de Chiwetel Ejiofor como protagonista compensa as faltas nesse quesito. Sua interpretação como o homem sequestrado e levado para o sul como escravo é assombrosa. Lupita Nyong’o protagoniza cenas emocionantes. Uma delas, a mais violenta cena do filme, acontece apenas nos minutos finais, e nela podemos perceber o respeito que roteiro e direção possuem pela história que se propuseram a contar, pois essa sequência deixa claro que a violência foi pensada e calculada durante toda a película, e não utilizada de forma irresponsável e irrestrita apenas para chocar o espectador.

A narrativa clássica do filme se mostrou um grande acerto. O fato de não haver grandes adornos técnicos apenas engrandece a narrativa proposta pelo roteiro, deixando em foco o que realmente importa. Os 12 anos de escravidão que dão nome ao título passam por nossos olhos de maneira sutil, com a montagem nos poupando de transições de tempo cafonas que geralmente permeiam biografias de segunda categoria. Percebemos a passagem do tempo apenas pela aparência cada vez mais cansada e sofrida de Solomon.

Mas a importância do filme de Steven McQueen ultrapassa suas qualidades fílmicas e se torna um documento fictício acerca de fatos terrivelmente reais, pois nos mostra sem meios termos ou melodramas baratos como podemos conceber o mal de forma tão banal. Cena após cena, 12 anos de escravidão revela a humanidade presente em seu protagonista e a verdade inerente ao seu sofrimento, demolindo sistematicamente as mentiras que o cinema americano vendeu por mais de um século. Por isso, não espere por um final facilmente digerível. Quando o filme acaba, tudo o que resta são dolorosas verdades, juntamente com a esperança de que o amor nos salve de nós mesmos.