domingo, 30 de março de 2014

Carrie, a Estranha (Carrie - 2013)



Carrie, a Estranha, dirigido por Brian de Palma em 1976, é um clássico do terror. Com uma Sissy Spacek numa interpretação insana na pele de Carrie, o longa se consagrou ao mostrar o desabrochar de uma adolescente paranormal que enfrenta a repressão familiar e escolar. Nessa nova versão, Carrie é interpretada por Chloë Moretz, e os problemas começam justamente nessa escalação. Embora Moretz seja uma atriz promissora, ela é conhecida demais por outros papéis para se passar por inocente. Ela veste roupas puídas e anda encolhida, mas por mais que se esforce, não engana ninguém. Quando o esperado baile de formatura chega, a personagem é subitamente hiperssexualizada, efeito sintomático da indústria que adora transformar o bizarro em objeto de desejo. Para condizer com essa hiperssexualização, as cenas desse terceiro ato foram gravadas com verdadeiro sadismo, reduzindo a poderosa personagem de Stephen King a uma adolescente vingativa. Como se isso não fosse o bastante, o filme perdeu completamente a mensagem de poder feminino contida no original. Nele, a passagem de menina para mulher é o centro da trama e está presente na associação entre a primeira menstruação de Carrie e a descoberta de seus poderes telecinéticos. Se no original Chris é a antagonista de Carrie justamente porque, para ela, esse assunto está mais que resolvido, chegando a convencer o personagem de John Travolta a participar de seus planos maldosos com ardis sexuais capazes de fazê-lo revirar os olhos, aqui ela é completamente subjugada pelo namorado machista. Amenizando o grotesco e soando altamente artificial, essa tentativa de transpor o livro de King para os dias atuais falha vergonhosamente. Mostrando uma Carrie de que estranha só possui o cabelo mal tingido, o filme acaba e ela se revela apenas uma adolescente tímida que precisava comprar roupas novas e fazer uma boa hidratação. Destaque para o cartaz e a cena em que Carrie voa: eles resumem bastante o que estou tentando dizer.

quinta-feira, 27 de março de 2014

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave - 2013)


“Existia uma terra de Cavalheiros e Campos de Algodão chamada O Velho Sul. Neste belo mundo, o Cavalheirismo teve seu último grande momento. Foi o último lugar em que se viu Cavalheiros e Damas Refinadas, Senhores e Escravos. Procure-o apenas em livros, pois hoje não é mais que um sonho. Uma civilização que o vento levou…”

Essas são as palavras, em tradução livre, que aparecem no início de E o Vento Levou... (Gone with the Wind, 1939), um dos filmes mais famosos do cinema. São com essas palavras, repletas de um sentimento de nostalgia a bons e velhos tempos, que um dos filmes mais cultuados do século passado descreve uma sociedade escravocrata. Este é apenas um exemplo de como a escravidão foi tratada pelo cinema americano ao longo de sua história. Senhores brancos foram sistematicamente retratados como benevolentes benfeitores, enquanto o trabalho dos negros nos campos era envolto por paisagens deslumbrantes e uma trilha sonora à altura.

É por esse motivo que, nesse contexto de filmes americanos acerca dessa temática, 12 anos de escravidão simplesmente se revela, em seus 134 minutos de duração, o mais importante filme sobre escravidão já feito. Apesar de ser de conhecimento geral a forma como escravos eram tratados e de dezenas de filme terem abordado esse tema, esse período da história nunca havia sido retratado francamente nas telas de cinema. Levou mais de 100 anos para que víssemos um chicote cortando um corpo negro nu e para que o homem branco escravocrata fosse mostrado como realmente era.

Em um filme com tamanha carga dramática, a escolha de um bom elenco é fundamental. A atuação no piloto automático de Paul Dano como um capataz arrogante e a nada orgânica aparição de Brad Pitt no terceiro ato são pontos negativos, mas a escolha de Chiwetel Ejiofor como protagonista compensa as faltas nesse quesito. Sua interpretação como o homem sequestrado e levado para o sul como escravo é assombrosa. Lupita Nyong’o protagoniza cenas emocionantes. Uma delas, a mais violenta cena do filme, acontece apenas nos minutos finais, e nela podemos perceber o respeito que roteiro e direção possuem pela história que se propuseram a contar, pois essa sequência deixa claro que a violência foi pensada e calculada durante toda a película, e não utilizada de forma irresponsável e irrestrita apenas para chocar o espectador.

A narrativa clássica do filme se mostrou um grande acerto. O fato de não haver grandes adornos técnicos apenas engrandece a narrativa proposta pelo roteiro, deixando em foco o que realmente importa. Os 12 anos de escravidão que dão nome ao título passam por nossos olhos de maneira sutil, com a montagem nos poupando de transições de tempo cafonas que geralmente permeiam biografias de segunda categoria. Percebemos a passagem do tempo apenas pela aparência cada vez mais cansada e sofrida de Solomon.

Mas a importância do filme de Steven McQueen ultrapassa suas qualidades fílmicas e se torna um documento fictício acerca de fatos terrivelmente reais, pois nos mostra sem meios termos ou melodramas baratos como podemos conceber o mal de forma tão banal. Cena após cena, 12 anos de escravidão revela a humanidade presente em seu protagonista e a verdade inerente ao seu sofrimento, demolindo sistematicamente as mentiras que o cinema americano vendeu por mais de um século. Por isso, não espere por um final facilmente digerível. Quando o filme acaba, tudo o que resta são dolorosas verdades, juntamente com a esperança de que o amor nos salve de nós mesmos.