sábado, 31 de maio de 2014

Yves Saint Laurent (2014)



A impressão que tive ao assistir Yves Saint Laurent foi a de que o filme já havia começado antes de eu chegar. Isso porque, quando o longa se inicia, Yves já trabalha com o renomado Christian Dior. E o que parece ser apenas uma consequência do corte necessário da vida da persona biografada se revela um sintoma de um roteiro que priva o espectador o tempo inteiro de cenas cruciais e que acaba por deixar de mostrar de forma consistente a maneira como o trabalho do estilista se consagra. 

Para se ter ideia da gravidade do que estou falando, o filme passa apenas por cima da revolução cultural que Saint Laurent causou ao colocar, pela primeira vez, em uma passarela, mulheres usando smokings e calças, trajes que, até então, eram usados apenas por homens. Yves Saint Laurent foi, ainda, o primeiro estilista da história a colocar uma modelo negra em uma passarela, mas o filme parece ignorar completamente esse fato.

O roteiro ainda nos priva de cenas importantes da vida pessoal do estilista. Em 1960, por exemplo, Saint Laurent foi convocado pelo governo francês para lutar na Guerra de Independência da Argélia. Saint Laurent sofreu homofobia, teve um colapso nervoso e acabou em tratamento psiquiátrico, incluindo tratamento com eletrochoques. Mas o longa acaba resumindo tudo isso em apenas uma cena em que o protagonista aparece transtornado e seu amado lhe faz uma visita. 

A relação de Laurent e Pierre Berge - seu companheiro na vida, nos negócios e no amor - é abordada com empenho, mas da mesma forma que a trajetória profissional do estilista é retratada basicamente com cenas chaves que parecem estar ali apenas por obrigação, as cenas de sua vida privada soam bastante artificiais, como se elas existissem apenas porque é de praxe, em cinebiografias de pessoas públicas, mostrar vidas privadas conturbadas e sofridas. Prova disso é a cena final, que tenta dar profundidade ao que foi mostrado, mas que acaba soando patética. Como cereja do bolo, o recurso cinematográfico escolhido para encobrir esses defeitos são as paupérrimas narrativas em off feitas por Berge, que desafiam a inteligência do espectador ao se referir à fatos da vida de Saint Laurent como se não o estivéssemos vendo em cena.

O filme, entretanto, possui suas qualidades, como a caracterização impecável de Pierre Niney como um dos maiores estilistas do século XX e os modelos de Saint Laurent reproduzidos para a feitura do longa. A não ser por esses elementos, o filme é facilmente esquecível, o que é uma pena. Yves Saint Laurent teve uma vida interessantíssima, o que apenas aumenta minha tristeza ao constatar que esse grande potencial cinematográfico foi desperdiçado pelo que me parece ter sido culpa, principalmente, da falta de paixão de seus realizadores.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Praia do Futuro (2014)


Em Praia do Futuro, de Karim Ainouz, Donato se apaixona por Konrad, um alemão que ele salva de um afogamento na praia que empresta seu nome ao título. O conflito acontece porque Donato, visto como um herói pelo irmão Ayrton, deixa este último e sua mãe para viver na Alemanha. Lá, Donato se reconstrói, encontrando na fria Berlim e em suas piscinas cobertas a liberdade que ele não encontrava nas praias ensolaradas do Ceará. O filme é estruturado em três partes com títulos inteligentíssimos que dialogam perfeitamente com os arcos narrativos apresentados. Estes se concentram nas três personagens principais e, embora outras sejam mencionadas, como a mãe de Donato, o fato de nunca aparecem em tela apenas multiplica o peso de sua ausência. Com personagens dificílimos, possuidores de grande carga dramática e poucas falas, o trio de protagonistas não deixa a desejar em nenhum momento, com destaque absoluto para Wagner Moura, que apenas se confirma como um dos melhores atores em atividade no Brasil. Tratando do encontro do homem consigo mesmo e da reconstrução de sua identidade, Praia do Futuro é um filme sensível que prova que nem todo recomeço é necessariamente feliz, ainda que o protagonista dance sob uma música alegre que não é a que escutamos. Destaque para as imagens belíssimas capturadas por Ainouz e os silêncios que surgem mesmo quando as personagens estão juntas, refletindo a máxima de que homens falam pouco.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Godzilla (2014)


Se Godzilla nasceu da paranoia do homem em relação à energia nuclear, fonte de ambição e poder que acaba se transformando em sua perdição, essa nova releitura parece não ter esquecido isso. Godzilla tem um primeiro ato primoroso, levando os temores pós-Fukushima ao extremo nas cenas que se passam dentro de uma usina nuclear e encabeçadas pelo impecável Bryan Cranston. Nessa sequência, o monstro ainda desconhecido e o temor diante de um desastre nuclear se misturam de maneira magistral com os dramas humanos. Embora Godzilla demore mais de uma hora para surgir em cena e isso não seja um problema, a maior falha do longa acontece justamente depois de seu aparecimento, quando o monstro acaba se tornando coadjuvante de seu próprio filme. Os outros monstrengos, que deveriam servir apenas como aperitivo, acabam ganhando ares de prato principal. O roteiro ainda tenta consertar isso no terceiro ato, o que nos faz perguntar porque ele não fez isso antes. Aaron Taylor-Johnson, o protagonista humano do longa, tem um papel que não lhe concede muitas possibilidades cênicas, sendo completamente eclipsado pela atuação de Cranston e as aparições de Ken Watanabe. No mais, os efeitos especiais são caprichados e a trilha sonora, com sons que remetem ao Japão, contribui bastante para a construção da tensão, embora acabe soando mais como um apetrecho exótico diante de tanta gente falando inglês. Ainda que a mitologia de Godzilla gire em torno de um monstro essencialmente oriental, Godzilla parece mais um filme catástrofe americano. Destaque para a cena em que soldados pulam de paraquedas no meio de uma cidade destruída pelos monstros. Os tons escuros de vermelho parecem querer dizer que eles estão indo para o inferno.